Retrato de um Artista Quando Jovem
Stephen Dedalus é o menino que o livro acompanha desde os primeiros balbucios da infância até a manhã em que, já rapaz, fecha uma porta atrás de si e sai para o exílio, decidido a escrever. O romance, publicado em 1916, é quase uma autobiografia do próprio Joyce, reescrita na terceira pessoa e depurada da matéria bruta da confissão. Vê-se Stephen na escola jesuítica de Clongowes, a educação intensa dos inacianos, as provas morais, as febres da puberdade, o confronto com o padre-director, a consciência agudíssima do pecado, o peso da família pobre e católica. Cada capítulo é escrito num registro estilístico diferente, correspondente à idade mental do protagonista: Joyce inventa, assim, a primeira biografia literária em que a própria prosa muda de pele com o narrador.
O grande momento do livro é o sermão sobre o Inferno, proferido pelo padre jesuíta durante um retiro espiritual. Joyce reconstrói, com precisão de teólogo, o modo como uma consciência adolescente, ensinada a temer a danação, atravessa três dias de terror absoluto e, para escapar dele, corre ao confessionário. A catolicismo infantil de Stephen volta intacto — por um instante. Basta poucas semanas para que a disciplina retorne ao combate com o desejo, e para que, nas páginas seguintes, o rapaz descubra que a sua vocação verdadeira não é o sacerdócio, mas a arte. A paisagem da decisão é uma praia em Dublin, ao entardecer, quando uma jovem descalça à beira d'água se torna para ele a imagem da beleza pagã recém-aceita.
Joyce escreveu Retrato do Artista como quem escreve a própria carta de demissão da Igreja, da família e da Irlanda. Não é, porém, panfleto. É a descrição interna, linha por linha, do que significa, numa cabeça adolescente catolicamente formada, romper com tudo aquilo que a formou sem a liberdade de formar-se sozinha. O livro termina com as páginas do diário de Stephen e a célebre profissão: “Vou para encontrar, pela milionésima vez, a realidade da experiência, e forjar na oficina da minha alma a consciência incriada de minha raça.” Dez anos depois, Joyce entregaria a mesma figura, mais velha e já marcada pelos golpes, ao romance seguinte: Ulisses.