A Montanha Mágica
Hans Castorp, jovem engenheiro naval hamburguês, sobe em 1907 até um sanatório de tuberculosos em Davos, nos Alpes suíços, para uma visita de três semanas ao primo internado. Sente, ali em cima, um leve mal-estar; os médicos diagnosticam-lhe, convenientemente, um foco suspeito no pulmão. As três semanas viram três meses, depois seis, depois um ano, depois sete anos. Castorp permanecerá na montanha até que a Grande Guerra o arranque do sanatório e o lance — o leitor nunca saberá se sobrevivente ou cadáver — nas trincheiras da planície. O romance, publicado em 1924, é considerado, por muitos, o mais importante Bildungsroman alemão do século XX.
Tudo em Davos é educativo e tudo é suspeito. Castorp tem dois mentores ideológicos que disputam sua alma. Settembrini, liberal-iluminista italiano, tuberculoso cheio de otimismo racionalista, faz o elogio da ciência, da democracia e do progresso. Naphta, ex-jesuíta judeu, tuberculoso cheio de fúria teocrática, faz o elogio da disciplina medieval, do comunismo místico e da violência revolucionária. Entre um e outro, Castorp vacila — como a Europa inteira vacilava nos anos que precederam 1914. Outras figuras passam: o sedutor holandês Peeperkorn, a russa Claudia Chauchat, o médico Behrens, o primo Joachim que morre com a dignidade dos soldados clássicos. O sanatório é, em pequena escala, todo o continente moribundo.
Mann começou o livro em 1912 como uma novela cômica sobre os sanatórios alpinos, e acabou publicando-o doze anos depois como monumento. É preciso paciência para o ritmo da montanha: o tempo, lá em cima, não é o tempo da planície. Mas quem persiste descobre, capítulo por capítulo, que a lentidão é o tema, não o defeito. A Montanha Mágica é uma longa meditação sobre o modo como a doença, a distância e a ociosidade transformam um burguês mediano num homem capaz de pensar. Quando a guerra o chama de volta ao vale, a pergunta que fica no ar é: foi o sanatório que o preparou para a trincheira ou que o impediu, durante sete anos, de já estar nela?