Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M38

Ulisses

James Joyce
Ponte James Joyce sobre o rio Liffey, Dublin — a cidade em que se passa o <em>Bloomsday</em>, 16 de junho.
Ponte James Joyce sobre o rio Liffey, Dublin — a cidade em que se passa o Bloomsday, 16 de junho.

Quinta-feira, 16 de junho de 1904. Um dia inteiro na vida de Leopold Bloom — judeu dublinense de trinta e oito anos, vendedor de anúncios para jornais, casado com a cantora Molly Bloom, pai de Milly e, antes dela, de um menino morto na infância. Em paralelo, o mesmo dia de Stephen Dedalus — o jovem intelectual que, no final do romance anterior, havia partido para o exílio e agora retornou a Dublin, desorientado, desempregado, recém-órfão da mãe que se recusou a benzer no leito de morte. Os dois se cruzam por acaso durante o dia, se encontram a sério ao anoitecer, e a casa para onde Bloom leva Stephen é a casa em que Molly, na cama, espera o amante que acaba de receber a tarde inteira. O romance, publicado em 1922, relata as dezoito horas desse dia em quase novecentas páginas.

A estrutura paralela com a Odisseia é explícita desde o título, mas discreta no texto. Bloom é Ulisses — errante, astuto, paciente, marido que só ao fim do dia volta para Penélope. Stephen é Telêmaco — filho espiritual em busca do pai que não é o pai biológico. Molly é Penélope — só que, ao contrário da esposa clássica, esta Penélope não esperou. Joyce reescreveu cada episódio do dia à luz de um canto homérico, atribuiu a cada capítulo uma hora do dia, um órgão do corpo humano, uma arte, uma cor, uma técnica narrativa distinta. O leitor passa de um monólogo interior ao estilo da redação de jornal, da paródia dos sermões ao catecismo por perguntas e respostas, até chegar, no último capítulo — o célebre monólogo de Molly —, a oito longas frases sem ponto, em que a esposa, na cama, revisita a vida inteira.

Ulisses é o romance mais enciclopédico da modernidade. Propõe-se, e cumpre, a tarefa de comprimir numa jornada comum a totalidade das formas literárias possíveis. Por isso é, para muitos, o livro mais difícil do século. Para outros, e com razão, é o livro mais humano: mostra que o banal de um dia — um café, um funeral, um banho, uma visita ao escritório, o sexo adiado — carrega em si a matéria épica que a Grécia antiga atribuía apenas aos heróis. Se lido com paciência, Ulisses é uma longa declaração de amor à experiência ordinária. E é, por fim, a palavra “sim” — a última palavra, repetida por Molly — que fecha o livro: aceitação plena, apesar de tudo, do dia vivido.

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