Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M35

Doutor Fausto

Thomas Mann
Thomas Mann em 1929, ano em que recebeu o Nobel de Literatura.
Thomas Mann em 1929, ano em que recebeu o Nobel de Literatura.

Adrian Leverkühn, prodígio musical alemão nascido em 1885, compositor de extraordinária inteligência, contrai voluntariamente uma sífilis que lhe condena o corpo a longa destruição — e, conta-nos o narrador, fecha simultaneamente um pacto diabólico pelo qual receberá, em troca da saúde e da capacidade de amar, vinte e quatro anos de genialidade composicional. Leverkühn cumpre o pacto. Torna-se o mais radical compositor alemão da primeira metade do século, inventor de um método dodecafônico que lhe permite romper com toda a tradição clássica. Numa festa fúnebre convocada pouco antes de mergulhar definitivamente na loucura, em 1930, apresenta aos amigos a sua obra suprema — uma Lamentação do Dr. Fausto. Cai ao piano. Não volta a ter consciência até morrer, dez anos depois. O romance, publicado em 1947, é narrado por Serenus Zeitblom, amigo de infância, enquanto as bombas aliadas destroem a Alemanha nazista.

Ninguém escreveu romance mais ambicioso na língua alemã do século XX. Mann compõe, simultaneamente, três livros sobrepostos. É o romance da vida individual de um compositor fictício inspirado em Nietzsche e em Arnold Schönberg. É a refundição, em chave moderna, da lenda alemã de Fausto — do livro popular de 1587, passando pelo Fausto de Goethe, até a renúncia ao pacto no último canto do Paraíso de Dante. E é, encimando tudo, a alegoria cruel e consciente da história alemã do século XX: um povo que trocou a alma pelo poder técnico e moral, e que paga, pagina a página, enquanto o amigo Zeitblom redige a crônica, o preço desse pacto.

Mann escreveu o livro nos Estados Unidos, em exílio voluntário desde 1933, consultando Theodor Adorno sobre os aspectos musicais. Publicou-o no ano imediato ao fim da guerra. É um livro difícil — exige paciência com as páginas técnicas sobre contraponto, e paciência com a prosa deliberadamente arcaizante do narrador. Mas quem resiste descobre, nas últimas cem páginas, uma das mais poderosas orações fúnebres já escritas por um alemão sobre a Alemanha. Leverkühn é o povo que o escreveu. A Lamentação do Dr. Fausto é também a lamentação de Mann — e da civilização que ele amara.

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