Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M34

Morte em Veneza

Thomas Mann
Wladyslaw Moes (o “Adzio”), o jovem polonês que Thomas Mann viu em Veneza no verão de 1911 — inspiração real para Tadzio.
Wladyslaw Moes (o “Adzio”), o jovem polonês que Thomas Mann viu em Veneza no verão de 1911 — inspiração real para Tadzio.

Gustav von Aschenbach, escritor alemão de grande prestígio, viúvo, disciplinado, fiel à própria vocação até o limite do apolíneo, sente numa certa manhã de Munique a necessidade imperiosa de viajar. Escolhe Veneza. Hospeda-se no Lido, num hotel de luxo, e ali, entre a clientela cosmopolita dos banhos, vê a família polonesa que hospeda o adolescente Tadzio — rapaz de beleza, diria Mann, “perfeita como uma estátua”. A partir desse instante, sem nunca lhe dirigir a palavra, Aschenbach começa a se dissolver. Fica. Não parte, embora Veneza padeça de uma epidemia de cólera que a municipalidade, por temor pelo turismo, não revela. Um dia, no terraço do hotel, Tadzio entra no mar. Aschenbach, assentado numa cadeira de praia, morre enquanto o observa.

A novela, publicada em 1912, é talvez a mais perfeita peça curta da literatura alemã moderna. Mann escreve sobre Aschenbach com uma ironia severa: o escritor exemplar, que construíra a vida inteira sobre o sacrifício dos impulsos em benefício da obra, descobre, às vésperas dos cinquenta anos, que tudo aquilo que reprimira continuava vivo por baixo — e que bastou uma cidade em decomposição, um rosto belo, a pressão morna do solstício, para que tudo viesse à tona em forma de paixão absurda. Tadzio não é amado como pessoa: é idolatrado como princípio. É Apolo invertido em Dionísio. É a forma que o Dionísio recalcado assume quando reaparece num homem educado demais para reconhecê-lo.

Quem lê Morte em Veneza como um livro sobre pedofilia o leu muito mal. É um livro sobre o que a disciplina faz quando, negada a vida inteira, cobra de uma vez o preço. É um livro sobre a cidade — Veneza em ruína — como metáfora de uma civilização que esconde da própria consciência as suas epidemias. É um livro, enfim, sobre a íntima proximidade entre a vocação artística e a autodestruição, quando a primeira se alimenta da recusa sistemática da segunda. Visconti filmaria a novela, em 1971, com precisão suficiente para que ninguém mais depois conseguisse ver Veneza sem ver Aschenbach. O livro é, definitivamente, pior do que o filme. É o que diferencia Thomas Mann: a luz é no texto, não na paisagem.

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