Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M32

O Rinoceronte

Eugène Ionesco
Eugène Ionesco em visita a Israel, década de 1970 — Arquivo Nacional de Israel.
Eugène Ionesco em visita a Israel, década de 1970 — Arquivo Nacional de Israel.

Numa pequena cidade da província francesa, num sábado tranquilo de verão, passa pela rua um rinoceronte. Há a surpresa natural — os transeuntes comentam, riem, teorizam. Dois amigos, Jean e Bérenger, bebem numa esplanada. Bérenger é o preguiçoso, o bebedor, o que não acorda cedo; Jean é o cidadão exemplar, bem vestido, disciplinado, dono da sua rotina. Nos dias seguintes, aparecem mais rinocerontes. Depois outros. Depois a maioria da cidade. Descobre-se que as pessoas se metamorfoseiam, uma a uma, na nova espécie — e que isso não as assusta, apenas as converte. Cada conversão começa com uma pequena rouquidão, um endurecimento na pele, o aparecimento de um chifre. A peça, estreada em 1959, relata, quase em tempo real, a rinocerização da cidade.

Ionesco, que vivera de perto o fascismo romeno da década de 1930 e o totalitarismo soviético da década de 1940, sabia exatamente o que estava escrevendo. O Rinoceronte é o retrato mais preciso do fenômeno que os historiadores e psicólogos passaram a chamar de conformismo totalitário. Não se trata de homens sendo obrigados pela força; trata-se de homens aceitando, um a um, sob pretextos plausíveis — prestígio, força, modernidade, coragem —, dissolver a própria humanidade numa identidade coletiva animalesca. Jean, o cidadão exemplar, é um dos primeiros a se transformar. Bérenger, o desleixado, é o único que não se transforma, e é por isso, apenas por isso, o único que resta humano.

No fim, só Bérenger e, por alguns momentos, sua namorada Daisy. Daisy decide juntar-se ao rebanho barrindo do outro lado da vidraça: “Eles são belos”, diz ela. “Eu é que sou uma aberração.” Bérenger, apavorado, primeiro tenta imitar o barrido para acompanhá-la, descobre que não consegue, e então se revolta: “Sou o último homem, permanecerei humano até o fim! Não capitulo!” A peça acaba com ele diante do espelho, só. Ionesco não escreveu um libelo ideológico — escreveu uma advertência psicológica. O conformismo nunca se apresenta como conformismo; apresenta-se sempre como a última modernidade da civilização.

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