Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M31

Um Inimigo do Povo

Henrik Ibsen
Henrik Ibsen, retrato de 1863 — início da carreira teatral do dramaturgo norueguês.
Henrik Ibsen, retrato de 1863 — início da carreira teatral do dramaturgo norueguês.

Numa pequena cidade balneária da Noruega, o dr. Stockmann — médico responsável pelo abastecimento de águas termais, principal atrativo turístico local — descobre que a água está contaminada por efluentes industriais a montante do aquífero. Os visitantes, enfermos de origem, poderão piorar gravemente. Stockmann, cheio de honestidade e de ingenuidade, prepara um relatório para denunciar o problema, convencido de que a cidade lhe será grata pela descoberta. A peça, de 1882, é o registro meticuloso do que acontece a partir daí: como os mesmos concidadãos que, horas antes, o chamavam de benfeitor, se revoltam contra ele quando percebem que a verdade sanitária significa a ruína econômica do balneário.

Ibsen não está escrevendo sátira. Está escrevendo diagnóstico. O irmão do médico, que é o prefeito, trama contra ele. O jornal, que prometia publicar o relatório, recua diante da pressão dos anunciantes. Os proprietários locais convocam uma assembleia popular para declará-lo, literalmente, “inimigo do povo”. Stockmann, no ponto alto da peça, sobe à tribuna e lança a frase que abalou toda a dramaturgia moderna: “A maioria nunca tem razão. Nunca, digo! É uma dessas mentiras sociais contra as quais um homem livre deve rebelar-se.” Os vizinhos jogam pedras nas janelas da sua casa. A filha perde o emprego. Os pacientes abandonam o consultório.

A peça é explicitamente uma resposta de Ibsen às reações que a sua peça anterior — Os Espectros — havia provocado. Ele, atacado pela crítica, responde pela pena de Stockmann. Mas não é mero desabafo. É uma reflexão sobre o que acontece com a verdade quando ela ameaça o bolso da maioria: é esmagada. Um Inimigo do Povo é lido com surpresa em cada geração porque em cada geração repetem-se, sob outras formas, exatamente os mesmos processos. A última fala de Stockmann é célebre: “O homem mais forte do mundo é aquele que está mais sozinho.” Discutível — mas, para ele, naquele momento, consolo suficiente.

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