Eugénie Grandet
Na pequena cidade de Saumur, junto ao rio Loire, vive o sr. Grandet — tanoeiro enriquecido, avaro que rivaliza com Harpagon e Plyúchkin e os supera em astúcia, porque não é um avaro cômico, é um avaro habilidoso, dissimulado, respeitado pela vizinhança. Sua fortuna cresce em silêncio, através de negócios opacos. Sua filha Eugénie, jovem casta e piedosa, vive com a mãe enferma e uma criada fiel numa casa onde se racionam a lenha, as velas e a simpatia. Num certo dia de 1819, chega de Paris um primo arruinado, Charles, em quem Eugénie, aos vinte e três anos, se apaixona. Balzac publicou o romance em 1833.
A peça inteira do drama se arma em poucos meses. Eugénie empresta ao primo todas as suas moedas de ouro — única riqueza que o pai lhe deixara guardar — para que ele refaça a vida nas Índias Ocidentais. O pai descobre o empréstimo e move contra a filha uma guerra fria, paciente, corrosiva, que dura anos. A mãe morre de tristeza. Charles, do outro lado do mundo, enriquece e esquece Eugénie. Quando volta à França, casa-se com outra. Eugénie herda a fortuna colossal do pai — e, com essa fortuna, fica inteiramente só. Torna-se filantropa, veste de preto, vive à maneira da mãe finada, guarda o ouro que recusou.
Balzac escreveu poucos livros tão compactos e tão devastadores. Eugénie Grandet é o retrato exato do modo como a ganância de um homem corrói, através das décadas, a vida de quem a ele se vê presa por laço de sangue. Mas é também, e isso é o paradoxo que torna o livro inesquecível, o retrato da dignidade com que a vítima sobrevive: Eugénie não se revolta, não se corrompe, não se vinga. Simplesmente continua. A sua bondade, herdada da mãe, é mais forte do que a avareza herdada do pai. O livro termina em silêncio. Nenhum romance ensinou mais do que este sobre o que a alma de uma mulher consegue suportar sem se quebrar.