Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M23

Ilusões Perdidas

Honoré de Balzac
Louis Boulanger, <em>Retrato de Honoré de Balzac</em>, c. 1837 — Maison de Balzac, Paris.
Louis Boulanger, Retrato de Honoré de Balzac, c. 1837 — Maison de Balzac, Paris.

Lucien de Rubempré, jovem poeta provinciano, deixa Angoulême rumo a Paris no rastro de uma aristocrata deslumbrada por seus versos. Leva na mala um livro de poemas e um romance histórico inédito. Está convencido de que o talento bastará. Parte, porém, despedindo-se de sua irmã e do cunhado David Séchard — impressor honesto, inventor pobre, que nesse mesmo instante inicia, em silêncio, a construção de uma fórmula industrial que poderia enriquecer a família. Publicado em três partes entre 1837 e 1843, Ilusões Perdidas é o grande romance de Balzac sobre o modo como Paris devora a província — e, através da província, devora a ingenuidade de todos os que nela ainda creem.

Lucien descobre em Paris que a literatura já é, em 1821, uma indústria. Os jornais se compram e se vendem; as resenhas se encomendam; os aplausos se alugam; os escritores honestos morrem pobres enquanto os oportunistas, armados de pena veloz e consciência elástica, enriquecem. Lucien, seduzido pela rapidez, torna-se jornalista. Assina os artigos que lhe mandam assinar. Arruína amigos. Trai a mulher que o ama. Arruína-se. Ao mesmo tempo, em Angoulême, David Séchard é esmagado por concorrentes inescrupulosos, e a invenção que o faria rico é roubada. No fim, Lucien tenta se matar — e uma figura sinistra, Vautrin, disfarçado de sacerdote, salva-o para usá-lo. É o início de outro romance, Esplendores e Misérias das Cortesãs, em que o mesmo Lucien acabará por se enforcar numa prisão.

Balzac escreveu o que ele chamou de Comédia Humana, e Ilusões Perdidas é talvez o mais acabado dos noventa e tantos livros desse projeto. Lê-se ainda hoje como diagnóstico exato do modo como o dinheiro, o jornalismo e a vaidade se combinam para corromper o talento jovem. Quem entrar no livro com ilusões, sairá sem elas. E quem sair sem elas terá aprendido, como os melhores leitores de Balzac aprenderam, que perder as ilusões não é envelhecer — é começar a ver.

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