O Misantropo
Alceste é um honesto. Decidiu, contra as leis da sociedade e contra o conselho do amigo Filinto, dizer sempre a verdade e recusar toda lisonja. A peça, estreada em 1666, mostra o que acontece quando um homem assim entra em contato com a corte de Luís XIV: perde causa na justiça, perde prestígio entre os nobres e está, para completar, apaixonado pela pior mulher possível para o seu propósito — a jovem viúva Célimène, encantadora, coquete, e que de nenhum dos seus pretendentes quer abrir mão. Alceste quer que ela escolha só a ele; Célimène quer que ele aceite dividi-la com os outros. Ninguém vai ceder.
O que parece comédia leve — e, sob certa luz, é — é, por dentro, a mais amarga reflexão sobre a honestidade que o teatro francês já produziu. Molière não faz de Alceste um herói nem um ridículo: faz dele um homem cuja virtude, levada às últimas consequências, o incapacita para a vida entre os outros. O amigo Filinto, que é verdadeiramente amigo, tenta fazê-lo compreender que um mundo sem mentira cordial é um mundo invivível. Alceste não cede. No fim, decide retirar-se “para um ermo qualquer” onde possa “ser honesto”. Célimène recusa acompanhá-lo, porque, aos vinte anos, não pretende enterrar-se em solidão. Cada um segue o seu caminho.
A peça é mais moderna do que todos os experimentos teatrais dos séculos seguintes. Porque Molière não está aqui apenas satirizando a afetação da corte — está dizendo uma coisa mais difícil, e mais verdadeira: o idealista absoluto, que recusa qualquer compromisso com a hipocrisia social, acaba por ser, ele próprio, uma espécie de hipócrita às avessas, porque exige dos outros uma pureza que não é dele conceder. A grandeza de Alceste está na sua recusa; a sua pequenez está na vaidade dessa recusa. Quem se vê inteiramente de um lado ou de outro da peça não a leu.