Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M22

O Inspetor Geral

Nikolai Gogol (Transcrição da Obra)
Folha de rosto da segunda edição de <em>O Revisor</em> (<em>O Inspetor Geral</em>), 1842.
Folha de rosto da segunda edição de O Revisor (O Inspetor Geral), 1842.

Numa cidade-governadoria russa do interior, corre o boato de que um inspetor-geral foi enviado incógnito de Petersburgo para fiscalizar a administração local. Toda a elite da cidade — prefeito, juiz, diretor de escola, inspetor sanitário, chefe dos correios — entra em pânico, porque todos roubam. Por uma cadeia de equívocos, os notáveis identificam como inspetor um jovem hóspede de pensão, Khlestakov, que não é inspetor de coisa alguma: é um funcionário medíocre em bancarrota, passando por ali a caminho de casa. Khlestakov, que a princípio não entende as reverências com que é recebido, percebe aos poucos a confusão e decide aproveitá-la. Recebe suborno, corteja a filha e a esposa do prefeito simultaneamente, come e bebe à vontade. Quando tudo está no auge, parte. Um telegrama chega: o verdadeiro inspetor acaba de se anunciar.

A peça, encenada pela primeira vez em 1836, por imposição do tsar Nicolau I — que, ironicamente, achara graça —, é a mais perfeita comédia russa já escrita. O mecanismo é infalível: a corrupção da província não é exposta por um moralista, é exposta pela própria província, que, ao tentar enganar o inspetor, se autodenuncia sem perceber. Khlestakov não é um impostor consciente; é um parasita da credulidade alheia. O verdadeiro impostor é a cidade. É ela que tem medo — e quem teme, quando tem o que esconder, confessa antes de ser acusado.

Gógol não está satirizando só a burocracia russa; está diagnosticando uma patologia que se repete sob todas as latitudes. A tragédia brasileira, para quem quiser ouvir, está inteira nesta peça. Na última cena, após a notícia fulminante do verdadeiro inspetor, todos os personagens ficam mudos, como petrificados, durante um tempo que Gógol descreve como “um minuto e meio” de silêncio total. É o retrato definitivo do que fazer quando a farsa inteira é exposta: não há o que fazer. A peça acaba. A culpa permanece.

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