Almas Mortas
Tchítchikov, personagem cuja única característica notável é a falta de característica, chega a uma pequena cidade russa com um plano peculiar: comprar, a preço simbólico, os camponeses que morreram entre dois recenseamentos mas que, nos registros oficiais, ainda figuram como vivos — as “almas mortas”. Como os proprietários pagam imposto sobre cada alma inscrita, desfazer-se delas é alívio. Tchítchikov oferece o alívio. Pretende, com o bando de fantasmas jurídicos assim acumulados, conseguir crédito, comprar terras de verdade e tornar-se senhor de uma propriedade ao sul. O romance, publicado em 1842, começa como sátira e termina como visão apocalíptica.
Gógol usa a viagem de Tchítchikov pelos arredores para fazer a mais cruel galeria da Rússia do seu tempo. Cada proprietário visitado é a encarnação de um vício — Maniílov, o sentimental oco; Sobakévitch, o glutão brutal; Pliúchkin, o avaro que apodreceu na própria sordidez. Não há um só que não seja uma “alma morta”, no sentido espiritual. E a graça do livro é que Tchítchikov se move entre eles sem percebê-los: cada um lhe parece natural, cada vício lhe parece respeitável. A Rússia pulsa nessa galeria como a Europa em Dostoiévski — viva e podre, como só os grandes romances sabem mostrar.
Gógol planejara uma trilogia à moda da Divina Comédia: o primeiro volume seria o Inferno; o segundo, o Purgatório; o terceiro, o Paraíso. Queimou o manuscrito do segundo volume pouco antes de morrer, em 1852, convencido de que tinha caído em heresia ao tentar mostrar russos bons. Restou o Inferno. É o suficiente: ninguém compôs, depois dele, um retrato mais preciso da mediocridade humana quando esta alcança a dignidade da respeitabilidade social. Quem leu Almas Mortas lê depois os jornais com outra suspeita.