Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M109

A Rebelião das Massas

Jose Ortega y Gasset
José Ortega y Gasset (à esquerda) com Luis Díez del Corral — coleção Juan San Martín.
José Ortega y Gasset (à esquerda) com Luis Díez del Corral — coleção Juan San Martín.

Em 1930, o filósofo espanhol José Ortega y Gasset publicou La Rebelión de las masas — ensaio que seria, no decênio seguinte, um dos livros mais discutidos da Europa e continua sendo referência obrigatória para qualquer leitor sério de política contemporânea. Ortega parte de uma constatação aparentemente óbvia: a Europa, entre 1800 e 1900, viu triplicar a sua população. Multidões inteiras que, em séculos anteriores, viveriam à margem da vida pública irrompem, pela primeira vez, no palco central da civilização. Essa irrupção quantitativa — o livro se abre, dramaticamente, com a imagem das cidades apinhadas, dos cafés lotados, dos trens cheios — tem consequência qualitativa: forma um tipo humano novo, a que Ortega chama de “homem-massa”.

O homem-massa, distinguido por Ortega do homem-aristocrata, não é, ele adverte, o pobre ou o trabalhador manual. É qualquer pessoa que, tendo recebido todos os benefícios da civilização — saúde, liberdade, educação, conforto —, sente-se com o direito de exigir mais sem reconhecer débito algum. O homem-massa é, na definição de Ortega, “o menino mimado da história”. Não sabe que a civilização que o criou foi conquistada por esforço de gerações; pensa que é “natural” tê-la; por isso, destrói-a sem perceber. O fascismo, o comunismo, a demagogia populista — todas são formas políticas que surgem quando o homem-massa chega ao poder e se recusa a reconhecer os limites que a vida culta impõe.

O livro de Ortega é lido hoje como se tivesse sido escrito ontem. A revolução das massas de 1930 foi a das ruas europeias entre as duas guerras; a de 2025 é a das mídias sociais e das celebridades instantâneas. O mecanismo é idêntico: indivíduos formatados pela satisfação imediata, incapazes de reconhecer hierarquia alguma de mérito, que exigem do mundo o reconhecimento sem antes oferecerem ao mundo o trabalho. Ortega não propõe soluções políticas fáceis. Propõe, apenas, que a restauração da civilização exige o reaparecimento, em número significativo, de um tipo humano diferente — aquele que se sente em dívida com a tradição que recebe e se dispõe a alimentá-la para passá-la adiante.

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