O Jardim das Aflições
Publicado em 1995, O Jardim das Aflições — de Epicuro à Ressurreição de César: Ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil é a obra mais ambiciosa do filósofo brasileiro Olavo de Carvalho. Partindo de um pequeno trecho da Epístola a Meneceu de Epicuro — aquele em que o filósofo grego recomenda aos discípulos que se entreguem a uma vida de prazeres comedidos num “jardim” afastado do tumulto da cidade —, Olavo desenvolve uma tese de fôlego considerável: o epicurismo, muito antes de ser uma doutrina ética individual, é a primeira expressão intelectualmente consequente do que ele chama de “religião civil” do Império Romano, e essa religião civil, metamorfoseada em várias formas ao longo dos séculos, é o adversário oculto do cristianismo em toda a história ocidental.
O livro desenrola essa tese em doze capítulos densos, atravessando Epicuro, Lucrécio, Augusto, a cristianização do Império, o paganismo renascentista, o Iluminismo, até chegar às ideologias modernas. O argumento central é que uma civilização pode optar por duas matrizes religiosas fundamentais: a do Deus transcendente, que exige a conversão íntima de cada homem — a matriz bíblica —, ou a da divinização do Estado, que exige apenas a conformidade exterior — a matriz romana. Olavo, conhecedor sério das fontes clássicas, mostra que as várias ideologias políticas modernas, tanto à esquerda quanto à direita, são, no fundo, recaídas na segunda matriz. O totalitarismo do séc. XX, as tecnocracias atuais, o progressismo cultural — todos são, para o autor, variações de uma mesma religião imperial.
O Jardim das Aflições não é livro simples. Exige do leitor uma base mínima em história antiga, filosofia clássica e teologia cristã. Mas, para o leitor formado, é uma das poucas obras brasileiras de filosofia política que se equiparam, em ambição e em fôlego de argumentação, aos autores europeus de referência. O próprio professor Monir incluiu a obra entre suas aulas porque reconhecia nela — a despeito das disputas pessoais e dos excessos polêmicos que cercam o autor em outros textos — uma contribuição real ao pensamento de língua portuguesa.