Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M06

Antígona

Sófocles
Frederic Leighton, <em>Antígona</em>, c. 1882 — coleção particular.
Frederic Leighton, Antígona, c. 1882 — coleção particular.

Antígona é a peça política mais pura já escrita. Dois irmãos morrem em lados opostos de uma guerra civil em Tebas. O novo rei, Creonte, ordena que um seja enterrado com honras e que o outro, Polinices, apodreça insepulto, ao relento, como exemplo. Antígona, irmã dos dois, desobedece. Cobre o corpo do irmão condenado com um punhado de terra. É presa. É condenada a ser emparedada viva. Não recua. Enforca-se antes. Hêmon, filho de Creonte e seu noivo, mata-se sobre o corpo dela. Eurídice, esposa de Creonte, mata-se ao saber. O rei permanece vivo — e só.

O eixo da peça é o confronto entre duas ordens de lei. A lei da cidade, que Creonte representa com a fúria do tirano novo. A lei não escrita dos deuses e do sangue, que Antígona obedece com a firmeza da mártir. Sófocles não simplifica. Creonte, na sua terrível coerência, defende a pólis contra o caos. Antígona, na sua terrível obstinação, defende a dignidade humana contra a máquina. Cada um tem razão em parte — e é porque cada um tem razão em parte que ambos se destroem. Nenhum tragediógrafo foi mais severo com a ideia de que a razão política, por si só, basta.

Hegel leu aqui a colisão das consciências éticas. Brecht leu aqui a luta contra a tirania. Kierkegaard leu aqui a singularidade irredutível da escolha pessoal. Simone Weil leu aqui a dignidade do vencido. Cada geração relê Antígona porque cada geração redescobre, nos seus próprios termos, a pergunta que a peça formula: quando o Estado exige o que a consciência proíbe, a quem se obedece? Enquanto essa pergunta existir, Antígona continuará viva. Ela continua.

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