Édipo Rei
Tebas é devastada por uma peste. Édipo, o rei sábio que resolveu o enigma da Esfinge e livrou a cidade do monstro, procura a causa da praga. O oráculo responde: há um criminoso impune entre os muros, o assassino do rei anterior, Laio. Édipo jura encontrá-lo e puni-lo. A peça, encenada por volta de 429 a.C., é a mais pura estrutura trágica já composta: cinco episódios em que o herói investiga um crime e, pouco a pouco, com uma inevitabilidade que nenhum romance policial jamais alcançou, descobre que o criminoso é ele próprio.
Édipo havia matado, sem saber, o próprio pai. Édipo havia casado, sem saber, com a própria mãe. Cumpriu, mesmo tentando escapar, o oráculo recebido ao nascer. Jocasta, ao compreender, enforca-se. Édipo arranca os próprios olhos com os broches da veste da mãe-esposa morta. O rei que decifrava enigmas descobre, tarde demais, que ele era o enigma. Aristóteles, na Poética, escolheu esta peça como modelo do gênero: o herói não cai pela maldade, cai pela combinação exata de nobreza, ignorância e destino.
Há quem leia Édipo pelas lentes de Freud, há quem leia pelas lentes de Heidegger, há quem leia pelas lentes da moralização catequética. Todas essas leituras empobrecem a peça. O que Sófocles mostra é mais simples e mais terrível: a busca da verdade, levada até o fim, destrói quem a empreende — e é precisamente por isso que a busca precisa ser feita. Édipo cego, conduzido pela filha Antígona pelos caminhos do exílio, é maior do que Édipo rei. A dignidade final de quem viu é maior do que a autoridade de quem ainda julgava ver.