Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M07

A Tempestade

William Shakespeare
John William Waterhouse, <em>Miranda — A Tempestade</em>, 1916 — coleção particular.
John William Waterhouse, Miranda — A Tempestade, 1916 — coleção particular.

Próspero, duque legítimo de Milão, fora expulso do poder pelo irmão Antônio e lançado ao mar num bote, com a filha Miranda, ainda criança. Sobreviveram numa ilha deserta, onde Próspero, versado em livros de magia, submeteu o espírito Ariel e o monstruoso Caliban. Doze anos depois, o navio do irmão usurpador passa próximo à ilha. Próspero levanta a tempestade do título, faz os náufragos baterem na praia e executa sua vingança — que, no fim, não é vingança. É, inesperadamente, perdão.

A Tempestade é a última peça que Shakespeare escreveu sozinho, por volta de 1611, e tem o tom de uma despedida. Próspero é um mago que renuncia à magia: quebra a varinha, afoga o livro, devolve Ariel à liberdade, reconcilia-se com os inimigos e volta à Milão para morrer. Há quem leia a peça como alegoria — o poeta que, no fim da carreira, abandona o teatro. Quem quer que seja Próspero, sua última fala é um pedido de perdão ao espectador e uma súplica por aplausos que o libertem. Poucas vezes a literatura alcançou essa mistura de humildade e majestade.

Há ainda o que a peça tem de político e de filosófico. Caliban, o “selvagem” da ilha, é uma das maiores invenções shakespearianas: ambíguo, rancoroso, lírico, cruel, o primeiro personagem da literatura europeia a dizer ao colonizador que aprendeu a falar a língua do senhor para praguejar contra ele. Ariel, o espírito do ar, é a outra face do servo — servo que quer a liberdade. Entre os dois, Próspero aprende a mais difícil das lições: que a soberania, mesmo legítima, não sobrevive a si mesma sem renúncia.

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