Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
GC-58

O mundo da técnica

Gustavo Corção
Gustavo Corção (1896–1978), engenheiro do Departamento de Correios e Telégrafos, escritor e cronista católico.
Gustavo Corção (1896–1978), engenheiro do Departamento de Correios e Telégrafos, escritor e cronista católico.

Engenheiro por formação e ofício — trabalhou décadas no Departamento dos Correios e Telégrafos, ensinou matemática na Escola Naval —, Gustavo Corção tinha autoridade rara para falar do mundo da técnica. Não era um filósofo de gabinete denunciando uma realidade que desconhecia: era alguém que vivera, por dentro, a era do telégrafo, do rádio, das primeiras transmissões internacionais. Esse mesmo homem, depois da conversão de 1939, começou a perguntar-se se a civilização industrial, à qual havia servido com competência, não estaria pagando algum preço impercebido pelo seu próprio sucesso.

Este texto retoma o tema que atravessa toda a obra madura do autor — em O Século do Nada (1973), em A Descoberta da Vida, nos artigos do Permanência: a técnica moderna, sem ser má em si mesma, tende a tornar-se totalitária quando deixa de ser instrumento e vira critério. Quando o homem passa a julgar o que vale a pena pelo que é tecnicamente possível ou economicamente eficiente, perdeu a referência. Os meios devoraram os fins. O mundo passa a ser administrado, não vivido.

Corção foi um dos primeiros brasileiros a enfrentar essa questão com ferramentas conceituais sérias — em diálogo com Heidegger, com Bernanos, com Romano Guardini. Não há nele saudosismo passadista; há, sim, a recusa a aceitar que a soma de comodidades técnicas equivalha à soma de bens humanos. Ouvir esta palestra é receber, da boca de quem operou os instrumentos, a advertência de quem aprendeu — tarde — que os instrumentos nunca foram neutros.

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