As aflições dos homens e as consolações de Deus
Gustavo Corção (1896–1978), engenheiro de telegrafia formado pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro, viveu até quase os quarenta e cinco anos como agnóstico cético, leitor voraz de Bergson, Bertrand Russell e dos cientistas do seu tempo. A conversão ao catolicismo, registrada com sobriedade no célebre A Descoberta do Outro (1944), aconteceu na maturidade — e, daí em diante, ele converteu também a sua prosa em uma das mais densas da literatura brasileira do século XX. Este texto, frequentemente associado a Lições de Abismo (1950), trata de uma das experiências mais universais e menos discutidas da existência humana: a aflição.
Para Corção, a aflição não é castigo nem acidente. É a forma como a finitude humana é percebida pela alma quando esta se recusa a anestesiar-se. O homem moderno, viciado em distrações, perdeu a capacidade de habitar a própria angústia — e, ao perdê-la, perdeu também a capacidade de receber as consolações de Deus, que só descem onde a alma se permite estar, primeiro, vazia. O paradoxo agostiniano que o engenheiro carioca recupera é simples: quem foge da aflição, foge da consolação; quem aceita o peso, aceita também o alívio.
O que distingue Corção de outros escritores religiosos do seu tempo é a inteligência técnica que ele traz para o assunto. Não há sentimentalismo. Há a precisão do engenheiro que mediu cabos submarinos antes de medir abismos espirituais. Para o ouvinte brasileiro do séc. XXI, acostumado à literatura católica de autoajuda, este texto é um banho frio salutar: mostra que a fé, quando é levada a sério, exige tanto rigor de pensamento quanto qualquer ofício humano sério.