O verdadeiro e o falso amor de si
O tema é antigo e exato: como distinguir o amor próprio que dignifica o homem do amor próprio que o corrompe. Santo Agostinho, em A Cidade de Deus, formulou a oposição clássica entre o amor sui usque ad contemptum Dei (o amor de si até o desprezo de Deus) e o amor Dei usque ad contemptum sui (o amor de Deus até o desprezo de si). Toda a tradição cristã posterior — de Bernardo de Claraval a Francisco de Sales, de Pascal a Newman — voltou ao mesmo problema. Gustavo Corção, neste texto, recupera o tema com a clareza que o caracteriza, traduzindo-o à linguagem psicológica e existencial do brasileiro do séc. XX.
O falso amor de si, diz Corção, não é o cuidado pelo próprio bem — esse é dever. É a fixação no próprio ego como centro da realidade. Esse amor, levado às últimas consequências, transforma o sujeito num pequeno tirano que cobra do mundo, dos outros e de Deus reverências que não são devidas a ele, e que, ao não recebê-las, faz da própria insatisfação a matéria-prima do ressentimento. O verdadeiro amor de si, ao contrário, parte do reconhecimento de que somos criatura — e portanto de que a nossa dignidade não nasce de nós, é-nos dada. Quem reconhece isso pode então amar-se sem se idolatrar, e amar os outros sem se anular.
É um texto de psicologia espiritual, no melhor sentido — não a “psicologia popular” do nosso tempo, que confunde autoestima com autossuficiência, mas a tradição cristã da introspecção que vai de Agostinho a Edith Stein. Para o leitor brasileiro contemporâneo, frequentemente exposto a discursos opostos — uns que mandam “se amar mais”, outros que mandam “se anular” —, Corção oferece a distinção precisa que falta nos dois extremos.