MFS11 - Filosofia especulativa e filosofia prática
A distinção é antiga e arrastou-se mal traduzida pelos séculos: filosofia especulativa (a que investiga o que as coisas são) versus filosofia prática (a que investiga o que devemos fazer). Aristóteles a formulou no início da Metafísica e na Ética a Nicômaco. Tomás de Aquino a sistematizou. A modernidade — sobretudo Kant, com a separação entre razão pura e razão prática — radicalizou-a a ponto de tornar as duas quase incomunicáveis. Mário Ferreira dos Santos retoma a distinção para mostrar, contra a separação moderna, que as duas filosofias são complementares e que separá-las é mutilar o pensamento.
A filosofia especulativa, sem a prática, vira gabinete estéril — saber sem consequência. A filosofia prática, sem a especulativa, vira moralismo cego — receita sem fundamento. A vida humana plena exige as duas: pensar com profundidade o que é o real, e agir com competência sobre o real conhecido. Aristóteles dizia que a virtude é hábito; MFS lembra que o hábito, sem ciência do que se faz, é apenas mecanização.
É uma palestra que pode parecer escolar — afinal, a distinção é manualesca. Mas o ouvinte que prestar atenção descobrirá que MFS está, por trás da distinção técnica, dirigindo um diagnóstico ao seu próprio tempo: a separação entre intelectuais que pensam sem agir e ativistas que agem sem pensar é uma das doenças centrais da modernidade. Aristóteles e Tomás continuariam a ter razão hoje, e por isso MFS os recupera.