MFS03 - Simbólica e Religião
Esta palestra ataca um dos pontos centrais — e mais incompreendidos — da obra de Mário Ferreira: a tese de que toda religião, na sua origem, é articulada por uma simbólica. O símbolo religioso (a cruz, a roda, o triângulo, a água, o pão) não é uma decoração que poderia ser substituída sem perda. É o veículo cognitivo pelo qual o conteúdo doutrinal alcança a mente humana. Eliminar os símbolos em nome de uma religião “puramente espiritual” ou “puramente racional” equivale a tentar comunicar uma sinfonia sem som.
MFS examinará, ao longo da palestra, vários símbolos comuns às grandes tradições religiosas — cristianismo, hinduísmo, budismo, islã, simbolismo cabalista — e mostrará as estruturas analógicas que os atravessam. Não está fazendo sincretismo: distingue claramente as doutrinas. Está, sim, mostrando que a forma simbólica é universal, ainda que cada tradição a particularize. Isso é tão verdadeiro para o batismo cristão quanto para a abluição muçulmana, para a cruz cristã quanto para a suástica indo-europeia (que MFS, como quase ninguém no século XX, sabia ler na sua origem religiosa, anterior ao uso nazista que a corrompeu).
Ouvir MFS sobre simbólica e religião é descobrir que a fenomenologia religiosa de Mircea Eliade — que estaria em voga internacional nas décadas seguintes — já tinha sido praticada por um filósofo brasileiro autodidata, em obscuras palestras paulistas dos anos 1960, com competência comparável e síntese própria. O Brasil, como tantas vezes, ignorou os melhores que produziu.