Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M78

O Homem sem Qualidades

Robert Musil
Carta manuscrita de Robert Musil a Viktor Zuckerkandl, agosto de 1938 — Biblioteca Nacional da Áustria.
Carta manuscrita de Robert Musil a Viktor Zuckerkandl, agosto de 1938 — Biblioteca Nacional da Áustria.

Viena, agosto de 1913. Ulrich, matemático de trinta e dois anos, filho de família abastada, toma a decisão de passar um ano em “licença da própria vida”. Não se sabe por quê. Talvez porque tenha percebido, numa manhã qualquer, que nenhuma das carreiras possíveis — o militar, o industrial, o funcionário — corresponde ao que ele é, mas também que ele próprio não sabe o que é. Entra, por acaso e por tédio, no comitê que planeja uma grande festividade patriótica para o septuagésimo aniversário do reinado do imperador Francisco José, previsto para 1918. A festividade nunca se realizará, porque em 1914 começará a Primeira Guerra Mundial, e em 1918 o império austro-húngaro deixará de existir. Mas durante todo o ano de 1913 o comitê reúne a nata vienense — intelectuais, diplomatas, industriais, aristocratas — que discute, sem saber, o epitáfio da própria civilização.

Musil começou a escrever o romance em 1921 e o deixou inacabado ao morrer em 1942, no exílio suíço. Publicou em vida dois volumes — mais de mil e quatrocentas páginas. Um terceiro volume ficou inconcluso. É talvez o livro mais vasto já escrito em alemão, comparável em ambição apenas a Em Busca do Tempo Perdido de Proust. O protagonista — Ulrich, o homem sem qualidades — é o herói da modernidade em negativo: aquele que, tendo todas as qualidades possíveis, recusa-se a fixar-se em qualquer uma delas, porque percebeu que cada qualidade escolhida é uma vida recusada. O livro inteiro é a anatomia da Áustria às vésperas do colapso, feita do interior de uma consciência que, antes mesmo do colapso, já o intuía inteiro.

Musil escreveu com uma precisão intelectual que o torna, para muitos leitores, mais próximo da filosofia do que do romance. Cada capítulo é uma miniatura de ensaio — o autor analisa a honra austríaca, o espírito burocrático, a paixão pela moral abstrata, o erotismo dissimulado, o conceito de gênio, o significado de uma vida “normal”. O leitor brasileiro dispõe de uma tradução de Lya Luft, que Monir considerava competente. Quem tem paciência para mil páginas densas descobre que O Homem sem Qualidades é o romance mais lúcido já escrito sobre o tipo de civilização que, nas primeiras décadas do século XX, se preparava para acabar sem saber.

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