Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M77

Michael Kohlhaas

Heinrich Von Kleist
Heinrich von Kleist (1777–1811), retrato póstumo.
Heinrich von Kleist (1777–1811), retrato póstumo.

Século XVI. Michael Kohlhaas, tratante de cavalos honesto e trabalhador, atravessa certa fronteira na Saxônia com uma tropa de cavalos. Um fidalgo local, usando de autoridade ilegítima, exige-lhe uma taxa inexistente e confisca-lhe dois cavalos magníficos até que ele apresente um passe. Kohlhaas, sem culpa, parte para obter o passe nas cidades vizinhas. Os cavalos, entretanto, são usados no trabalho dos servos do fidalgo e voltam, meses depois, esqueléticos. Kohlhaas reclama na justiça. A justiça, protegida pelos conluios nobiliárquicos, arquiva o caso. Kohlhaas insiste. É humilhado. A esposa, tentando interceder junto ao Eleitor da Saxônia, é espancada pelos guardas e morre em seguida. Kohlhaas, então, levanta um pequeno exército particular, queima a Saxônia em nome da justiça que lhe foi negada, torna-se o homem mais perigoso do Sacro Império, é perseguido, capturado, condenado à decapitação — mas obtém, na hora da morte, a restituição exata dos dois cavalos nos quais tudo começara. A novela é publicada por Kleist em 1808.

É uma das obras mais intensas da prosa alemã. Kleist escreve em frases longas, articuladas por conjunções subordinadas que se amontoam como vagões de trem. O ritmo dá ao leitor a sensação exata do que Kohlhaas vive: uma injustiça se empilha sobre a anterior, a rede de desonestidades se complica, até que a única saída visível é a explosão. Kohlhaas não é um criminoso. É um cidadão arruinado pela incapacidade do Estado de cumprir a sua função mais elementar — proteger os justos.

A pergunta que a novela lança — e que nem sequer tenta responder — é se a busca obstinada da justiça, quando o Estado falha, é virtude ou crime. Kohlhaas é as duas coisas simultaneamente. Tem razão absoluta; tem culpa absoluta. A ordem é violada pelo nobre que o espoliou; a ordem é violada pela vingança que ele organiza. Kleist, obcecado por este tipo de paradoxo moral, coloca o leitor em xeque. Thomas Mann, Franz Kafka, Doctorow, Coetzee — cada um, a seu modo, escreveu variações do caso Kohlhaas. A novela original continua a mais pura. Quem a leu não confunde mais retidão com legalismo, nem violência com injustiça — porque aprendeu que essas categorias são, às vezes, inseparáveis.

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