Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M75

Castro

Antônio Ferreira
Cena romântica de <em>Súplica de Inês de Castro</em> — tema recorrente na pintura portuguesa do séc. XIX.
Cena romântica de Súplica de Inês de Castro — tema recorrente na pintura portuguesa do séc. XIX.

No século XIV, o infante dom Pedro, herdeiro do trono de Portugal, apaixonou-se pela galega Inês de Castro — dama de companhia da sua esposa. Após a morte da esposa, Pedro passou a viver publicamente com Inês, com quem teve filhos. O rei dom Afonso IV, pai de Pedro, convenceu-se de que Inês conspirava para elevar os filhos à sucessão do trono em prejuízo do legítimo herdeiro. Em 1355, três conselheiros do rei, com a autorização real, degolaram Inês em Coimbra. Quando Pedro subiu ao trono, dois anos depois, fez exumar o corpo da amada, coroou-o rainha de Portugal — segundo a lenda, obrigando os nobres a beijar-lhe a mão descarnada — e perseguiu os assassinos até matá-los. A história, mais lenda do que história, tornou-se o primeiro grande tema trágico da literatura portuguesa.

António Ferreira, humanista português formado em Coimbra, compôs em meados do século XVI a tragédia Castro, publicada postumamente em 1587. Escrita em versos ao modo clássico, com coro ao estilo senequiano e obediência rigorosa às unidades aristotélicas, é a primeira grande tragédia em língua portuguesa moderna e, talvez, a primeira tragédia renascentista em toda a península ibérica. Ferreira não se interessa pela intriga sangrenta: interessa-se pela dignidade com que Inês enfrenta a acusação, pelo dilema moral do rei, pela passividade trágica do infante que só depois da morte da amada descobrirá a estatura do seu amor.

A peça é pouco lida hoje — o que é perda cultural grave. A sua matéria retorna, por via indireta, em Camões (episódio dos Lusíadas), em Maneuel Teixeira-Gomes, em obras operísticas italianas do século XVIII e em adaptações teatrais modernas. Mas o Castro de Ferreira, lido em si mesmo, é um documento admirável de como a cultura portuguesa, em pleno século XVI, já possuía os recursos expressivos para colocar-se ao nível dos melhores autores trágicos europeus da época. A expressão portuguesa de “amor mais forte do que a morte” — que atravessa a imaginação lusófona até hoje — nasce com esta tragédia.

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