Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M74

Eneida

Vigílio
Ilustração de Pinelli para <em>Histórias de Virgílio</em>, séc. XIX — cena da Eneida.
Ilustração de Pinelli para Histórias de Virgílio, séc. XIX — cena da Eneida.

Eneias, herói troiano, filho de Vênus e do mortal Anquises, escapa com um pequeno grupo de refugiados da cidade em chamas. Por ordem dos deuses, deve fundar na Itália uma nova pátria, da qual, séculos depois, nascerá Roma. Durante doze livros — que Virgílio compôs entre 29 e 19 a.C., quando morreu deixando o poema tecnicamente inacabado —, acompanha-se a travessia do herói: a passagem pelo mar Egeu, o naufrágio em Cartago, o amor trágico com a rainha Dido (que se mata após o abandono), a descida ao Hades para consultar o pai morto, a chegada ao Lácio, a guerra com os latinos, o duelo final com o rival Turno.

Virgílio escreveu a Eneida como encomenda indireta de Augusto — o imperador que acabara de pacificar a República romana e tinha interesse em receber um poema fundador que desse à sua Roma um passado mítico à altura do presente imperial. O poeta aceitou a tarefa, mas o que fez com ela ultrapassou em muito a celebração oficial. A Eneida é um poema melancólico. Eneias carrega o peso do que perdeu — Troia, o pai, a primeira esposa, a amada Dido — e cumpre a missão imperial sem alegria, por pura pietas, aquela virtude romana que liga filho ao pai, cidadão à pátria, homem aos deuses. É o oposto do entusiasmo heroico homérico.

A tradição ocidental posterior — de Dante (que escolheu Virgílio como guia na Divina Comédia) a Hermann Broch (que fez da morte do poeta o tema do seu romance) — voltaria sempre a este livro porque nele se encontra a primeira reformulação da epopeia depois de Homero. Homero celebra heróis; Virgílio celebra o esforço civilizatório. Homero glorifica a cólera; Virgílio glorifica a renúncia. Homero termina em guerra; Virgílio termina em guerra também, mas a sua última cena — o duelo em que Eneias, vendo no inimigo Turno o cinturão do jovem amigo Palante morto, mata-o sem piedade — é perturbadora. O poeta parece hesitar. A Roma futura, Virgílio sussurra, estará cheia de cinturões arrancados. Nenhuma civilização fundou-se sem sangue.

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