Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M64

Madame Bovary

Gustave Flaubert
Albert Fourié, ilustração para <em>Madame Bovary</em>, fim do séc. XIX — edição francesa ilustrada do romance de Flaubert.
Albert Fourié, ilustração para Madame Bovary, fim do séc. XIX — edição francesa ilustrada do romance de Flaubert.

Emma Rouault, filha de pequeno proprietário rural normando, casa-se com Charles Bovary — médico provinciano de inteligência morna, viuvo de uma mulher mais velha e rica. Esperava encontrar no casamento a vida apaixonada que lera nos romances românticos da adolescência. Encontra um marido afetuoso, sem brilho. Tem uma filha, Berthe. Aborrece-se. Compra móveis a crédito. Toma um amante, Rodolfo, que a abandona. Toma outro, Léon, que se cansa dela. Acumula dívidas. Engana o farmacêutico Homais, engana o marido. Quando o oficial de justiça aparece para penhorar a casa, Emma percorre a cidade em busca de quem lhe empreste dinheiro. Ninguém empresta. Volta à farmácia, abre o armário do arsênio e engole. Morre dois dias depois, em meio a vômitos. Charles, fiel até o fim, descobre as cartas dos amantes só após a morte da esposa. Morre logo em seguida.

O romance, publicado em 1857, foi processado por imoralidade. Flaubert foi absolvido — e o processo lhe rendeu fama. O escândalo não estava no adultério (o assunto não era novo), mas no modo como Flaubert o tratou: sem condenação, sem complacência, com o que ele próprio chamou de “impassibilidade”. O autor não julga Emma; deixa que o leitor a julgue, ou melhor, que o leitor descubra que não consegue julgá-la sem julgar a si mesmo. Cada um, em algum grau, é Emma — cada um deseja uma vida maior do que a vida que tem.

Flaubert escreveu o livro em cinco anos de trabalho diário sobre cada frase, à procura do que ele chamava de “mot juste”, a palavra exata. O resultado é o estilo realista mais perfeito da prosa francesa. Cada cena — o casamento na fazenda, o baile no castelo de Vaubyessard, a feira agrícola onde Rodolfo seduz Emma enquanto na praça vizinha um prefeito discursa sobre o progresso — é um pequeno tratado sobre o modo como a banalidade dos outros cerca e finalmente esmaga o sonho do indivíduo. “Madame Bovary, c'est moi”, teria dito Flaubert. É a confissão mais honesta que um autor já fez sobre a fonte do seu romance: aquela fonte é, sempre, ele próprio.

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