Terra Arrasada
Em 1922, recém-saído de uma crise nervosa em Lausanne, T. S. Eliot publica nos Estados Unidos e na Inglaterra um poema de 433 versos chamado The Waste Land — em português normalmente vertido como A Terra Desolada ou Terra Arrasada. Nada na poesia em língua inglesa tinha preparado o leitor para o que ali aparece: cinco partes aparentemente desconexas, escritas em vários registros — alta liturgia, pub londrino, profecia veterotestamentária, conversa quotidiana —, em mais de uma língua (inglês, alemão, francês, italiano, latim, sânscrito), com citações encaixadas de Dante, Shakespeare, Wagner, Baudelaire, dos Upanishads, da Bíblia, todas elas pulverizadas e remontadas como um vitral feito a partir de cacos de catedrais diferentes.
O poema é, diretamente, a expressão da crise de civilização que a Europa atravessava em 1922 — quatro anos após o fim da Primeira Guerra, com o continente em ruína espiritual mais do que material. Eliot, americano que se naturalizara inglês e se converteria pouco depois ao anglo-catolicismo, vê o Ocidente moderno como uma terra árida, povoada por mortos vivos, onde a fertilidade dos antigos rituais se perdeu e nenhum novo ritual a substituiu. As figuras míticas que atravessam o poema — o Rei Pescador ferido da lenda do Graal, o vidente cego Tirésias que “tudo viu”, a Sibila condenada a viver eternamente — são as testemunhas dessa esterilidade.
Terra Arrasada é texto difícil — Eliot ele próprio publicou “notas” ao poema, em parte para confessar débitos, em parte para confundir leitores. Mas a dificuldade é o tema, não o defeito. Quem o lê em voz alta — porque a poesia precisa ser lida em voz alta — descobre que, apesar da fragmentação, o poema canta. Termina com a palavra sânscrita Shantih, repetida três vezes — a paz que ultrapassa o entendimento. Eliot oferece essa paz como horizonte, não como conquista. Para alcançá-la, primeiro é preciso atravessar a terra arrasada. Nem ele, nem o seu leitor, conseguem evitar a travessia.