Fausto (Segundo)
Enquanto a primeira parte de Fausto é uma tragédia individual sobre o desejo, a morte e a culpa, a segunda — publicada postumamente em 1832, poucos meses depois da morte de Goethe — é outra coisa. Abre-se com o protagonista adormecido em paisagem alpina, onde espíritos da natureza apagam o peso da culpa do primeiro ato. Depois, Fausto parte para o mundo: corte imperial, evocação de Helena de Troia, casamento simbólico com a beleza clássica, a empresa imensa de conquistar terra ao mar e, ao fim, a morte. O diabo acredita ter vencido o pacto — Fausto, já velho e cego, diz “detém-te, és tão belo” ao imaginar a paisagem liberta que a sua obra futura propiciará aos homens. Mas os anjos descem e disputam-lhe a alma.
Fausto II é o texto literário mais difícil da tradição alemã. Alegórico de ponta a ponta, em versos de métrica variável, com cenas que passam do laboratório medieval à Grécia mitológica, da corte renascentista à visão final da salvação, exige do leitor uma paciência que só a experiência do leitor formado consegue oferecer. Goethe escreveu-o, ao longo de décadas, como quem depositava nele a síntese total de tudo o que havia pensado, lido, amado, temido. O episódio de Helena — em que Fausto atravessa milênios para casar-se com a Grécia e engendrar com ela o filho Euphorion, que imediatamente morre tentando voar — é um dos textos mais densos do romantismo europeu.
A fala final do livro — o Chorus Mysticus — é a mais alta que Goethe compôs: “Tudo o que é efêmero é apenas uma parábola. O inatingível aqui se realiza. O indescritível aqui é feito. O eterno-feminino nos atrai para o alto.” Em seis versos, Goethe sintetiza a sua filosofia da vida: o que realmente importa não é a realização, é o caminho; o que salva o homem não é a justiça que ele merece, é a misericórdia que se inclina para ele. Nenhuma obra moderna foi mais grandiosa na sua ambição. Nenhuma foi tão modestamente cristã no seu desfecho.