Fausto (Primeiro)
O dr. Fausto, velho sábio alemão, esgotou as quatro faculdades — filosofia, jurisprudência, medicina e teologia — e, apesar disso, encontra-se, numa certa noite de desespero, incapaz de saber o que move o mundo. Prepara uma dose de veneno. A entrada coral da Páscoa o interrompe. No dia seguinte, ao passear com o seu discípulo Wagner, encontra um cão estranho. O cão é Mefistófeles. Fausto aceita o pacto: o demônio lhe servirá neste mundo; se, em algum momento, Fausto disser ao instante presente “detém-te, és tão belo”, sua alma será do demônio. A primeira parte, publicada por Goethe em 1808, conta a história do que Mefistófeles oferece inicialmente a Fausto — a vida de um jovem em perigo, a sedução da camponesa Margarida (Gretchen), o fascínio do prazer terreno, e termina com a queda de Margarida, que mata o filho recém-nascido e é condenada à morte. Ao executá-la, porém, uma voz do alto proclama: “está salva”.
Goethe trabalhou na obra durante mais de sessenta anos. Começou como jovem tempestuoso, terminou como ancião olímpico. Fausto I, a primeira parte publicada, é a mais acessível: traz, em proporções equilibradas, a disputa do pacto, a tragédia de Gretchen, a meditação sobre o conhecimento, o desejo e a culpa. Margarida é, sem exagero, a figura feminina mais comovente da literatura alemã: ingênua, católica, pobre, capaz de amor absoluto, destruída pelo amor. Mefistófeles é, antes de tudo, o espírito que nega — o princípio sempre negativo, como o próprio demônio se define —, mas um negador de humor gélido, inteligência aguda e lirismo ocasional. Não há mal maniqueísta nele. Há a lógica do espírito que zomba de tudo o que seja mero anseio.
O Fausto não é somente a maior obra literária da língua alemã; é, com a Divina Comédia e Shakespeare, o terceiro pilar da tradição literária ocidental dos últimos oito séculos. Lê-lo em alemão é privilégio de poucos; lê-lo em tradução, dever de muitos. Ninguém sai do Fausto I sem compreender melhor o que significa desejar mais do que se pode ter — e o preço que a ambição paga a si mesma.