A Morte de Ivan Ilitch
Ivan Ilitch é juiz de São Petersburgo. Fez uma carreira discreta e correta, subiu na hierarquia, casou-se com a mulher certa, comprou os móveis certos, frequentou as visitas certas. Um dia, ao arrumar uma cortina nova, escorrega da escada, bate o flanco e começa a sentir uma dor sem nome. Os médicos não concordam no diagnóstico. A dor piora. A novela, publicada em 1886, é o relato dos últimos meses desse homem — primeiro a negação, depois o pânico, depois a raiva, depois a solidão, depois, enfim, uma forma inesperada de verdade. Tolstói acompanha cada etapa com a paciência de quem está fazendo uma autópsia da própria vida.
O escândalo da obra é este: descobre-se, lendo-a, que a vida inteiramente respeitável de Ivan Ilitch — a vida que todos consideravam exemplar — foi, em essência, uma fuga da vida. Ele casou sem amar, procriou sem paternidade, trabalhou sem vocação, acumulou sem necessidade. Tudo o que fazia cumpria apenas um propósito: parecer correto. No leito da morte, rodeado pela família que já conta os dias, o único ser humano que o trata como gente é um camponês ignorante, Gerássim, que o carrega nos braços para aliviar-lhe a dor. O rude Gerássim sabe, sem ter lido filósofo nenhum, uma coisa que o juiz jamais aprendeu: todos nós vamos morrer, e é preciso ajudar.
Três dias antes de morrer, Ivan Ilitch entende. “A vida não foi a que devia ter sido — mas isso ainda pode ser consertado.” E, nesse último instante, não há mais dor, não há mais medo, não há mais morte. Tolstói escreveu A Morte de Ivan Ilitch em plena crise religiosa pessoal, nos anos 1880, e o livro é, simultaneamente, a sua profissão de fé e o seu mais devastador libelo contra a vida burguesa. Ninguém o lê e sai imune. É o tipo de livro que obriga o leitor a se perguntar, imediatamente, se a vida que ele próprio tem levado é a vida que devia ter sido.