Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M18

Notas do Subsolo

Fiódor Dostoiévski
Isaac Levitan, <em>Lago — Rússia</em>, 1900 — paisagem melancólica do interior russo, atmosfera próxima ao subsolo dostoievskiano.
Isaac Levitan, Lago — Rússia, 1900 — paisagem melancólica do interior russo, atmosfera próxima ao subsolo dostoievskiano.

“Sou um homem doente. Sou um homem mau. Sou um homem desagradável.” Assim começa, em 1864, a mais venenosa e a mais clarividente das novelas modernas. Um funcionário aposentado de São Petersburgo, sem nome, sem amigos, sem futuro, senta-se para escrever umas memórias da sua existência medíocre — e, nesse exercício, produz a primeira grande radiografia literária do que os modernos chamariam de ressentimento. A primeira parte é puro monólogo filosófico; a segunda, um episódio humilhante em que o narrador, aos vinte e quatro anos, tenta em vão se inserir num jantar de antigos colegas, acaba na casa de uma jovem prostituta, Liza, e lhe inflige uma crueldade cujo único motivo é a raiva de ter sido, ele próprio, humilhado.

Dostoiévski escreveu o livro em réplica aos socialistas utópicos russos, que imaginavam um homem novo, racional, livre, pacífico, guiado pelo cálculo do interesse esclarecido. O homem do subsolo é a objeção viva a essa fantasia: tem todas as informações para agir corretamente e escolhe agir contra si mesmo, por puro espírito de contradição, por pura vontade de não ser determinado. “Duas mais duas são cinco — às vezes é também uma coisa muito simpática.” Nenhum manifesto do existencialismo posterior foi mais longe do que essa frase. Nietzsche, Sartre, Camus — todos aprenderam com este narrador.

Notas do Subsolo é desconfortável porque o leitor, por mais que queira, reconhece em si mesmo algo daquele homem. A vaidade miúda, o cálculo mesquinho, o impulso de ferir quem nos fez um bem que não sabemos retribuir — tudo isso é diagnosticado com uma precisão que não envelhece. O livro não oferece consolo nem solução. Oferece apenas um espelho. Dostoiévski parece sugerir que a primeira condição para uma vida digna é a lucidez sobre essas camadas — não por virtude, mas por honestidade.

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