Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M116

Hércules

Menelaos Stephanides
<em>Hércules e Caco</em>, de Bartolommeo Bandinelli, 1534 — Piazza della Signoria, Florença.
Hércules e Caco, de Bartolommeo Bandinelli, 1534 — Piazza della Signoria, Florença.

O grego contemporâneo Menelaos Stephanides dedicou décadas a reescrever, para o grande público, os ciclos da mitologia grega em versões fiéis às fontes antigas e, ao mesmo tempo, acessíveis ao leitor comum. O seu volume sobre Hércules, traduzido para mais de trinta línguas, é um dos mais procurados da coleção. Reúne, em ordem canônica, as narrativas clássicas sobre o maior herói pan-helênico — filho de Zeus e da mortal Alcmena, enteado enciumado de Hera, vencedor dos doze trabalhos impostos como penitência por um crime de loucura, explorador dos confins do mundo conhecido, divinizado ao final da vida.

Os doze trabalhos de Hércules — o leão de Nemeia, a hidra de Lerna, a corça de Cerínia, o javali de Erimanto, os estábulos de Augias, as aves do lago Estínfalo, o touro de Creta, as éguas de Diomedes, o cinto de Hipólita, os bois de Gerião, as maçãs das Hespérides, a descida ao Hades para buscar Cérbero — não são apenas aventuras físicas. Cada uma, segundo as interpretações alegóricas antigas (retomadas pelo próprio Stephanides nas notas), corresponde a uma vitória moral: da força bruta sobre os monstros externos, mas também do herói sobre os próprios excessos internos. Hércules é, no fundo, o primeiro homem da tradição ocidental que precisa matar, uma por uma, as forças destrutivas que habitam dentro dele próprio. Só ao final dos trabalhos — ao recolher as maçãs do jardim das Hespérides, no ocidente mítico — é que se torna, verdadeiramente, herói.

Stephanides escreve com naturalidade, sem academicismo e sem barateamento. O leitor brasileiro tem à disposição, em algumas edições, uma tradução competente para o português. Monir usava esta obra nos seus cursos de introdução à mitologia porque oferece, em formato narrativo contínuo, o que os estudantes precisam saber para depois poder entrar em textos antigos mais complexos (Homero, Hesíodo, Apolodoro, Ovídio). Ler Hércules por Stephanides é preparar-se para a literatura ocidental inteira — porque o herói que ele narra reaparece, com nomes diferentes, em todos os grandes livros que a Europa produziu.

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