Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M03

Prometeu Acorrentado

Ésquilo
Peter Paul Rubens, <em>Prometeu Acorrentado</em>, c. 1611–12 — Philadelphia Museum of Art.
Peter Paul Rubens, Prometeu Acorrentado, c. 1611–12 — Philadelphia Museum of Art.

Prometeu roubou o fogo dos deuses para entregá-lo aos homens. Por esse gesto fundador — que deu à humanidade a técnica, a palavra e, afinal, a consciência — Zeus o condenou a ser acorrentado num rochedo do Cáucaso, onde, todos os dias, uma águia lhe devora o fígado, que todas as noites volta a crescer. Ésquilo, no século V a.C., pegou esse mito arcaico e dele fez uma tragédia sobre o preço do conhecimento.

A peça quase não tem enredo: Prometeu, imóvel, conversa. Primeiro com Hefesto e os servos de Zeus que o acorrentam a contragosto; depois com o coro das Oceânides, que chora por ele; depois com Oceano, que recomenda prudência; depois com Io, a jovem transformada em novilha, outra vítima da divindade. Cada visita é um ponto de vista diferente sobre a mesma questão — até que ponto é lícito desafiar a ordem estabelecida em nome do benefício dos mortais? Prometeu nunca recua. Prefere a dor eterna à submissão.

Não há herói mais moderno na Antiguidade. Shelley escreveu um Prometeu Desacorrentado para corrigir o destino do titã. Goethe escreveu um poema em que Prometeu modela os homens do barro e desafia os deuses a impedi-lo. Marx o chamou de o primeiro santo do calendário filosófico. Kafka, em seus aforismos, lembrou que, com o passar dos séculos, todos esqueceram a causa do suplício — inclusive a águia, inclusive o próprio Prometeu. Resta a ferida. Ler Ésquilo é descobrir que a civilização inteira é a cicatriz dessa ferida.

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