Odisséia de Homero
Se a Ilíada é o poema da guerra, a Odisséia é o poema do retorno. E ninguém que tenha vivido o bastante ignora que voltar pode ser mais difícil do que partir. Caída Troia, o rei de Ítaca — Ulisses, o mais astuto dos gregos — leva dez anos para reencontrar a ilha, a esposa e o filho. Entre a queda da cidade e o pátio de sua casa, atravessam-se ciclopes, sereias, feiticeiras, reinos de fantasmas; mas nada disso é simples maravilha pagã: cada episódio é uma estação no aprendizado de um homem que precisa deixar de ser guerreiro para tornar-se, de novo, marido, pai e rei.
Homero inventa aqui a figura que atravessará toda a literatura ocidental: o herói-viajante, astucioso e ambíguo, capaz de chorar e de mentir, capaz de matar e de perdoar. Ulisses não vence pela força — vence pela mêtis, aquela forma de inteligência que o grego distinguia da simples sabedoria e que os modernos perderiam a coragem de elogiar. E Penélope, desfazendo à noite a teia que tece de dia, é a outra face do mesmo poema: paciência como forma de fidelidade, espera como forma de heroísmo.
Ler a Odisséia é compreender que toda vida humana digna desse nome é uma travessia, e que, ao fim da travessia, o pão e o leito conjugal podem ser a mais rara das vitórias. Dante, Joyce, Kazantzákis, Walcott — todos voltariam a este livro não para imitá-lo, mas porque dele não conseguiram se livrar. Nem se pode.