José Monir Nasser é economista, escritor, consultor econômico e desempenha várias outras atividades ligadas a cultura e à educação liberal. Dentre outras coisas, é o idealizador do projeto Expedições pelo Mundo da Cultura - realizado em três cidades do Paraná,Curitiba, Londrina e Paranavaí, e em São Paulo – e o fundador da Triade Editora.

O professor Monir, como é conhecido entre seus alunos, concedeu uma entrevista ao Aristoi, falando sobre sua formação intelectual, sua vida profissional e seus projetos educacionais diversos. Como ele tem sido um incansável e importante divulgador da educação liberal em nosso país, acreditamos que nossos leitores gostarão de conhecer melhor seu trabalho.


Em primeiro lugar, gostaríamos que contasse um pouco aos nossos leitores sobre sua formação e como entrou em contato com a educação liberal.


Eu fui um aluno de educação liberal quando eu tinha entre 15 e 18 anos. Eu e meu amigo Henrique Elfes, quando estudávamos no Colégio Marista, em Curitiba, tivemos a sorte de ter um professor chamado Irmão Virgílio Balestro, que era um educador no sentido da educação liberal. Dos 15 aos 18 anos ao invés de ter férias, nós ficávamos estudando com o irmão Balestro. Com ele fizemos inúmeros trabalhos: lemos Os Lusíadas, os Sermões do Padre Vieira, fizemos uma pequena pesquisa filológica e inúmeras outras coisas. Quando terminei o ensino médio, eu tinha passado por uma experiência similar, guardada as devidas proporções, daquela por que passam os alunos americanos nas grandes escolas preparatórias para a universidade. Nos EUA ainda sobraram 200 instituições de educação liberal, que não são High Schools, mas escolas preparatórias (leiam Peter Cookson Jr., Preparing for Power). A primeira coisa, portanto a deixar claro é que dentro dos moldes que o Irmão Balestro foi capaz de conceber, eu fui um aluno de educação liberal, antes dos 18 anos.
Além disso, no colégio, eu era editor de um jornal cultural chamado A Formiga. Eu tinha uns 15 ou 16 anos e me metia a fazer crítica de teatro, de cinema e coisas assim. Claro que eram todas umas porcarias, mas já era um sintoma de que minha vida acabaria tendendo para esse tipo de assunto.
Quando fui para a universidade, estudei, em primeiro lugar, filosofia, mas não terminei o curso por várias razões, sobretudo porque os horários eram infernais, e acabei cursando economia e letras. Contudo, por conta daquela minha formação na educação liberal, eu não consegui me desvincular de assuntos culturais.

Como essas duas formações ou interesses, o cultural e o econômico, relacionam-se em sua vida?

Pode-se dizer então que minha vida divide-se em três partes: na primeira, eu era um economista trabalhando com abertura de capital de empresas e que lia Shakespeare; na segunda, eu era um consultor econômico que estudava muitas e muitas coisas para ser um bom consultor, mas estava mais interessado em desenvolvimento econômico; e na terceira parte da minha vida, na qual já estou a alguns anos, eu sou um sujeito que lida com assuntos culturais e que secundariamente trabalha com desenvolvimento regional, sobretudo com assuntos agrícolas.

Ao sair da universidade, acabei concentrando-me mais em assuntos econômicos. Participei de uma experiência econômica original, que se chamava Mercado Comunitário de Ações, uma tentativa de criar no Brasil um mercado de acesso, um sistema de negociação de ações de empresas na própria sociedade onde elas estão. Entrei numa equipe liderada por um sujeito muito brilhante, chamado Rubens Portugal, e me dediquei a isso por muitos anos. Era algo que exigia muito conhecimento técnico, bastante conhecimento de mercado de capitais, etc.

Em 1987 esse projeto acabou e me apareceu a possibilidade de ter uma carreira no mercado de ações, mas eu não tinha o menor interesse nisso. O projeto me agradava porque exigia estudo e pesquisa, mas a vida de bancário não me atraia nem um pouco. Então eu montei uma consultoria para a viabilização econômica de empresas, que era mais ou menos o que eu já fazia no antigo projeto. Aos poucos isso foi se desenvolvendo em assuntos mais conceituais, sobre o que é empresa, estratégia, competição - desenvolvi vários modelos de análise competitiva - até que minha consultoria evoluiu para uma consultoria de desenvolvimento regional e fui me distanciando de trabalhos diretamente com empresas. Nesse período, meus estudos sobre cultura também tinham se desenvolvido bastante, eu estava estudando coisas bem complexas e foi aí que escrevi meu livro A economia do Mais. Nesse momento, a consultoria passou a ser muito limitada e ocupar um segundo plano, assim como os estudos culturais na primeira e segunda parte da minha vida.

Quando eu vejo essa predominância da minha vida como economista sobre a vida cultural eu me pergunto se essa foi uma boa idéia. Hoje eu tenho a sensação de que foi bom, porque a vida voltada para assuntos culturais, independente de alguma experiência econômica concreta, tende para uma certa teorização excessiva. Eu sempre digo para meus alunos: são duas horas de filosofia e duas horas de Globo Rural. Há um limite para o estudo de teorias, que varia de pessoa para pessoa. Aristóteles dizia que eram 3 horas. Raymond Aron dizia que estudava todos os dias, aos domingo, nos feriados, no Natal, mas só pela manhã. Parece que o segredo do estudo é muito mais a constância do que propriamente a intensidade.

Você participou em Curitiba de um experimento pioneiro no Brasil, reunindo filhos de amigos para ler os clássicos. Como surgiu a idéia? Como era organizado o seminário? Qual o resultado?

Bom, aí você vê como as coisas aconteceram. Dentro dessa visão de desenvolvimento regional, eu mantinha no IPD, que é uma entidade fundada pelo Carlos Schmidt para desenvolver o estado do Paraná, um seminário chamado Curso de Empreendedorismo Cívico, que é o assunto do livro A Economia do Mais. Esse curso começou a crescer e o diretor executivo do IPD resolveu fazer uma auditoria para ver se ele funcionava mesmo, já que a idéia era transformá-lo em uma especialização universitária. Então eu sugeri que convidassem o Olavo de Carvalho para avaliar o curso, já que ele me parecia o sujeito mais capacitado para fazê-lo. Ele veio e passou o dia todo reunido com a diretoria do IPD discutindo sobre o curso. Ele insistiu que era preciso focar mais diretamente no individuo. O curso era voltado para o desenvolvimento regional e para o empreendedorismo cívico, mas ele achava, com toda razão, que o grupo dos participantes era muito pobre intelectualmente. Combinamos, então, de fazer um curso conjunto, eu e o Olavo. Ele trataria de filosofia e eu de desenvolvimento econômico. Esse curso é dado até hoje pelo seu filho, o Luiz Gonzaga de Carvalho Neto.

Nessa época, como o Olavo vinha muito para Curitiba, decidimos fazer mais algumas coisas juntos. Foi então que ele apresentou o projeto de educação liberal, que era basicamente pegar uns 20 livros e ler junto com alguns jovens. No final da leitura, o Olavo faria seminário sobre o livro. Primeiro nós tentamos conseguir a adesão de alguma escola. Fomos à escola dita mais audaciosa de Curitiba, mas eles não entenderam nada do que falamos. Pegamos então nossos filhos, mais os filhos de alguns amigos, e fizemos um grupo de 30 adolescentes. O projeto funcionava da seguinte maneira: o pessoal comprava o livro e lia toda quarta-feira à noite sob a monitoria do Luiz Gonzaga e do Carlos Vargas, que era aluno do Olavo. Uma vez por mês o Olavo vinha e discutia o livro com os garotos. Foi uma experiência de muito sucesso, apesar da disparidade de aproveitamento do grupo. Depois eu fiz um exercício similar com alguns adolescentes em Paranavaí, no qual lemos durante um ano o Crime e Castigo.

Como surgiu a idéia do programa Imersões pelo Mundo da Cultura e como ele é desenvolvido?

Eu chamo esse programa de projeto Ulisses, porque Ulisses é sujeito que depois de vários anos volta para a casa. É como se eu, nesse terceiro momento da minha vida, estivesse voltando para casa, que é voltar para os assuntos culturais. Eu precisava saber como fazer essa viagem de volta, então eu a as pessoas que trabalhavam comigo, minha irmã Patrícia e Sandra Cristina Dias, concebemos uma maneira de fazer isso. Escolhemos 100 livros que seriam trabalhados em 100 encontros em Curitiba ao longo de 5 anos e em quantos encontros fossem possíveis em outras cidades, que são Londrina, Paranavaí e São Paulo. Nesses encontros nos lemos o livro inteiro, de modo sintético, numa reunião de 4 horas. Eu faço um resumo que é entregue aos alunos e que é lido em voz alta. Esse resumo tenta, pelo menos, nivelar o conhecimento da história entre os estudantes. Por essa razão, nesse programa, os livros de natureza ficcional funcionam melhor que os de natureza especulativa, já que é mais fácil contar uma história em 4 horas do que estudar Aristóteles em igual período. Descobrimos que esse método dá um trabalho infernal, razão pela qual ninguém o faz, pois o trabalho de fazer os resumos é muito grande. No Paraná esse programa acabou ganhando um patrocínio muito importante de SESI e em São Paulo ele funciona de maneira independente na É Realizações, na Rua França Pinto.

Além do Expedições, você também orienta grupos de leitura de livros específicos. Como esses grupos funcionam?

O Expedições pelo mundo da cultura é um dos métodos que eu utilizo. O outro método é dos grupos de leitura, que é voltado para um número menor de pessoas que se encontram muitas vezes em cima do mesmo assunto e lêem o livro inteiro juntos. Nesse momento eu estou fazendo sete grupos de leitura.

O que é programa Paidéia, desenvolvido em Paranavaí?

Em Paranavaí, além de um grupo de leitura do livro O Reino da Quantidade, de René Guénon, que já está indo para o segundo ano, há o grupo Paidéia, que se reúne em torno do livro de mesmo nome de Werner Jaeger. O problema desse projeto é que ele é profundamente atípico, pois são muitas pessoas, e tivemos que desenvolver um terceiro método. Ele é formado por mais de 100 pessoas, que são professores e pedagogos de todos os municípios do entorno de Paranavaí. Um grupo de alunos da pedagoga Ismênia Varela, ao longo do mês, trocando idéias comigo, prepara uma seleção dos trechos do livro que nós lemos num encontro mensal. Infelizmente, o livro tem 1200 páginas e nós só temos 10 míseros encontros. Os professores lêem esses estratos escolhidos e depois eu conduzo uma discussão sobre educação em cima do que foi lido.
Esse programa é absolutamente audacioso. Estamos debatendo o que é educação, no sentido de formação, não segundo entendemos formação hoje em dia, mas formação num sentido civilizatório. Estamos tentando fazer com que um grupo de professores e coordenadores pedagógicos de cidades pequenas possa entender como os gregos, um pequeno grupo de ilhas, conseguiram ser co-autores da civilização ocidental, já que ela é metade helenismo e metade cristianismo.
Tem sido uma experiência extraordinária. Eu não sei muito bem onde é que vamos parar esse ano, mas eu não me preocupo muito com isso, porque se não for assim, você acaba não fazendo nada. Eu tenho, contudo, a impressão de que vamos ter em algumas pessoas resultados fantásticos.

Você desenvolveu uma teoria do desenvolvimento regional na qual o aprimoramento intelectual do indivíduo e a formação de uma elite intelectual desempenham um papel importantíssimo. Poderia explicar melhor essa idéia?

Eu tenho conduzido tudo que eu faço em função da idéia de que há uma hierarquia natural dos saberes humanos, na qual assuntos como a variação da condição humana e a estrutura da realidade estão sempre mais no alto. O que eu tenho feito é mostrar que, dentro do contexto do desenvolvimento regional, o que faz uma economia dar certo nunca é algo que está no próprio nível da economia. O que faz a economia dar certo é algo que está acima dela. O próprio Adam Smith, que escreveu A Riqueza das Nações, escreveu a Teoria dos Sentimentos Morais, onde aparece a idéia de que os fatores que tornam o capitalismo possível não estão no próprio capitalismo. Não há capitalismo possível sem a proteção aos contratos, sem a idéia de honestidade, sem a expectativa do cumprimento dos acordos, etc. 
O Brasil é um país que sofre de uma mediocridade econômica terrível. A economia brasileira é, sob alguns aspectos, 5% da economia americana. O problema é que todo mundo acha que essa é uma questão econômica, quando na verdade é civilizatória e moral.
A minha tecnologia de desenvolvimento regional, que está explicada no livro A economia do Mais, é justamente você pegar um grupo de cidadãos de um lugar, voluntários interessados, e fazer com eles um processo de recuperação e restauração intelectual, ou seja, dar-lhes uma verdadeira educação, ex-ducare, levá-los para fora da jaula e mostrar o mundo a eles. O processo econômico depende necessariamente disso, desse grupo de pessoas interessadas em conversar sobre o lugar em que vivem. Na medida em que fazem isso, vão aos poucos melhorando sua perspectiva do mundo. Ao entrarem em contato com a contribuição extraordinária de Shakespeare, Aristóteles, etc., eles são capazes de contaminar o sistema para que ele reaja melhor.
Não há uma ligação direta entre cultura e economia, mas sim uma subordinação vertical: aquilo vem do alto, o ideário e o imaginário coletivo, representa em baixo um impacto econômico. Todo país rico, antes de ficar rico, tornou-se um país espiritualizado, sério. Ser rico é um efeito colateral de ser uma sociedade decente e não o contrário. Mas isso é muito difícil de explicar no Brasil, porque como reduzimos tudo à questão econômica, para o brasileiro ficar rico é uma prioridade, só depois é que vamos pensar em como não ir para o inferno. Isso é o contrário do processo civilizatório.
Você compreende bem isso quando se olha a evolução do nome do país: o Brasil chamava-se Terra de Vera Cruz, depois virou Terra de Santa Cruz, que eram, no final das contas, menções religiosas, ou seja, o país estava sendo fundado como derivação de algo que o transcendia, e no último momento virou Brasil, que é uma commodity. E o Brasil, se tem algum sucesso econômico no momento é devido à exportação de commodities. Isso, de certa forma, mostra que nós continuamos ainda no mundo das coisas, que não conseguimos ir nem para o mundo das idéias, nem das emoções, nem para nada. O Brasil é uma sociedade sensorial e essa é sua desgraça, pois não vamos construir uma civilização com base nos cinco sentidos.