Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M97

Menon

Platão
Busto de Platão, cópia romana do séc. IV a.C. — Musei Capitolini, Roma.
Busto de Platão, cópia romana do séc. IV a.C. — Musei Capitolini, Roma.

Sócrates encontra Mênon, jovem aristocrata tessálio em visita a Atenas, e este lhe faz a pergunta que abre o diálogo: a virtude se ensina? Ou é antes um dom da natureza? Ou se adquire de outra maneira? Sócrates responde, como é seu hábito, que não sabe. Propõe que examinem juntos o problema. Sucede, porém, que Mênon se inflama com outra dificuldade: como é possível procurar o que não se conhece? Se já o conhecêssemos, não precisaríamos procurá-lo; se não o conhecemos, como reconhecê-lo quando o encontrarmos? É o famoso “paradoxo de Mênon”, um dos primeiros grandes problemas epistemológicos formulados na filosofia ocidental.

A resposta de Sócrates é a teoria da reminiscência: aprender é recordar. A alma, antes de encarnar-se, contemplou as verdades eternas; ao nascer, esqueceu-as; viver é recuperá-las. Para provar este ponto, Sócrates chama um escravo da casa de Mênon, analfabeto, nunca educado em geometria, e, por meio exclusivo de perguntas bem feitas, extrai dele a solução de um problema geométrico — duplicar a área de um quadrado. O escravo, guiado apenas por perguntas, descobre sozinho a resposta. Sócrates conclui: o conhecimento matemático estava na alma do escravo; o diálogo apenas o fez aflorar. A pedagogia socrática, batizada maiêutica (arte do parto), consiste em ajudar a alma a parir o que nela já existia.

Mênon é, talvez, o mais didático dos diálogos platônicos. Em pouco mais de cinquenta páginas, o leitor é introduzido aos três eixos centrais da filosofia platônica: a natureza da virtude, a teoria do conhecimento como recordação, a função da alma como depositária das verdades eternas. No fim do diálogo, a pergunta inicial continua sem resposta definitiva — a virtude parece ser, provisoriamente, um dom divino, uma “opinião verdadeira” não fundamentada em saber. Mas Sócrates promete que, outra vez, quando voltarem a encontrar-se, tentarão chegar ao saber mesmo. O diálogo termina em expectativa. A filosofia platônica inteira é a recusa em fechar o exame antes da chegada do saber — recusa que é, por fim, o próprio saber.

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