A Peste
Orã, cidade portuária francesa na costa argelina, anos 1940. Uma manhã, o dr. Bernard Rieux encontra na escada do prédio um rato morto. Depois outro. Depois centenas. Os ratos morrem nas ruas, nos pátios, nas cozinhas. Começam os primeiros casos humanos de febre, íngua, delírio, morte. A autoridade sanitária hesita em reconhecer a doença. Quando finalmente admite, é tarde: a peste bubônica instalou-se. Orã é fechada. Os cidadãos ficam separados, por meses, dos entes queridos que estavam fora da cidade. Durante a quarentena, o romance acompanha o dr. Rieux, o jornalista Rambert, o padre Paneloux, o servidor público Grand, o estranho Tarrou — cada um deles lidando à sua maneira com a catástrofe coletiva. O livro foi publicado em 1947.
Camus, que perdera a figura do absurdo em O Estrangeiro de 1942, encontra agora a figura da solidariedade. Dr. Rieux e os que com ele trabalham nas “equipes sanitárias” não são heróis trágicos: são homens comuns fazendo o que qualquer homem digno faria — tratar dos doentes, enterrar os mortos, manter os registros, não fugir. O padre Paneloux, em dois sermões célebres, oferece primeiro uma interpretação teológica da peste como castigo e, depois, humilhado pela morte de uma criança, uma interpretação mais humilde e mais comovente. Tarrou, o estrangeiro de passado misterioso, confessa a Rieux que desde sempre se preocupa em “não ser pestilento” — ou seja, não contaminar os outros com o seu próprio vazio moral. É a frase que define o livro.
A peste é metáfora transparente. Escrita durante e logo após a ocupação nazista da França, é transparentemente uma alegoria de ocupação, do nazismo, da barbárie moderna que se instala sem razão aparente e se vai sem dar explicações. Mas a alegoria é larga. Qualquer mal coletivo — epidemia literal, guerra, totalitarismo, hipocrisia social — cabe nela. A última frase do livro é um dos maiores avisos da literatura do século XX: “O bacilo da peste não morre nem desaparece jamais… pode ficar adormecido décadas nos móveis e nas roupas… chegará o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste despertará suas ratazanas e as mandará morrer numa cidade feliz.” Não envelheceu. Não envelhecerá.