Michael Kohlhaas
Século XVI. Michael Kohlhaas, tratante de cavalos honesto e trabalhador, atravessa certa fronteira na Saxônia com uma tropa de cavalos. Um fidalgo local, usando de autoridade ilegítima, exige-lhe uma taxa inexistente e confisca-lhe dois cavalos magníficos. Kohlhaas, sem culpa, parte para obter o passe. Os cavalos são maltratados. Kohlhaas reclama na justiça. A justiça, protegida pelos conluios nobiliárquicos, arquiva o caso. A esposa, tentando interceder junto ao Eleitor da Saxônia, é espancada e morre. Kohlhaas, então, levanta um pequeno exército particular, queima a Saxônia em nome da justiça que lhe foi negada, torna-se o homem mais perigoso do Sacro Império, é capturado, condenado à decapitação — mas obtém, na hora da morte, a restituição dos dois cavalos.
É uma das obras mais intensas da prosa alemã. Kleist escreve em frases longas, que se amontoam como vagões de trem. O ritmo dá ao leitor a sensação exata do que Kohlhaas vive: uma injustiça se empilha sobre a anterior, a rede de desonestidades se complica, até que a única saída visível é a explosão.
A pergunta que a novela lança — e nem tenta responder — é se a busca obstinada da justiça, quando o Estado falha, é virtude ou crime. Kleist coloca o leitor em xeque. Thomas Mann, Franz Kafka, Doctorow, Coetzee — cada um escreveu variações do caso Kohlhaas. A novela original continua a mais pura. (Aula também catalogada sob o código M77.)