Memórias Póstumas de Brás Cubas
“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas.” Assim começa, em 1881, o livro que inaugura a maturidade absoluta de Machado de Assis e, sem exagero, o realismo literário brasileiro digno desse nome. Brás Cubas, defunto-autor, decidiu, do outro lado da morte, escrever as suas memórias. Conta a vida em ordem própria, com saltos, digressões, capítulos minúsculos — alguns formados por uma única frase ou por uma sequência de pontos —, e narra-a com a liberdade de quem nada mais tem a perder, porque já perdeu tudo.
Não há, na literatura latino-americana do século XIX, livro mais radical. Machado abandona a estrutura linear do romance europeu, importa Sterne, Xavier de Maistre e Lucrécio, e funde tudo num estilo que é apenas dele: irônico, lapidar, filosófico, brincalhão e amargo simultaneamente. A sua filosofia, nas Memórias, está concentrada na figura paralela de Quincas Borba, formulador do Humanitismo — doutrina segundo a qual “ao vencedor as batatas”. É a sátira mais corrosiva da Lei do Mais Forte travestida de filosofia.
O capítulo final — “Das negativas” — fecha as Memórias com uma das mais belas economias da literatura mundial: Brás Cubas faz o balanço da vida e descobre, no último parágrafo, que “tive um pequeno saldo, que é a seguinte negação: não atinei nada, não fui nada, não fiz nada, não tive nada. Verdade é que não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.” É a confissão final de uma vida sem propósito, escrita com a serenidade de quem já está livre de propósitos. Memórias Póstumas é o livro brasileiro que nenhum outro superou. (Aula também catalogada sob o código M58.)