Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M71

O Livro de Jó

Bíblia
William Blake, <em>Jó e sua Família</em>, 1805 — da série <em>Illustrations of the Book of Job</em>.
William Blake, Jó e sua Família, 1805 — da série Illustrations of the Book of Job.

Um homem justo, Jó, vive na terra de Uz com sua grande família e gado abundante. Deus, nas cortes celestes, louva-o diante do acusador — o Satanás, literalmente “o adversário”. Satanás responde: “É fácil ser justo quando tudo corre bem. Tira-lhe o que ele tem, e verás.” Deus autoriza a experiência. Jó perde os bens. Perde os filhos. Perde a saúde. Sentado no monturo, entre as cinzas, coçando-se com um caco de louça, é visitado por três amigos — Elifaz, Bildad, Zofar —, e depois por um quarto, Eliú. Todos tentam convencê-lo de que deve ter feito algo errado, porque Deus é justo e, portanto, não castigaria um inocente. Jó recusa. Exige a audiência divina. No capítulo 38, em meio a um turbilhão, Deus responde. Não explica por que Jó sofreu. Apenas mostra a grandeza da criação: quem sabe os lugares onde habita a luz? Quem dá ao corcel a sua força? Jó cala. É restituído em dobro. Mas o livro é clássico, não pelo final feliz, e sim pelo diálogo que o precede.

O Livro de Jó é a peça central da literatura sapiencial do Antigo Testamento. Escrito provavelmente entre os séculos VI e IV a.C., em hebraico, é o primeiro texto da tradição ocidental que enfrenta de modo frontal a questão do sofrimento dos justos. Jó rejeita, uma a uma, as respostas fáceis dos amigos: os seus tormentos não são castigo por pecado, não são disciplina pedagógica, não são teste público da sua virtude. O que Deus oferece na resposta, no turbilhão, não é uma explicação — é uma manifestação. Jó não entende mais. Mas vê. E o ver basta.

Quem leu o livro inteiro em voz alta — como aconselhavam os antigos — percebe que a sua poesia é tão alta quanto a dos grandes trágicos gregos. Kierkegaard, Chesterton, Simone Weil, Thomas Mann — todos voltaram a Jó para pensar o escândalo do sofrimento inocente. Jó é, em alguma medida, o primeiro existencialista. Recusa-se a fingir que entende o que não entende. Mantém-se digno diante do silêncio. E, quando o silêncio se quebra, a dignidade dele é a que o faz capaz de ouvir. Dentro da tradição ocidental, nenhuma outra página encaminha de modo tão direto a pergunta pela teodiceia — nem nenhuma outra tem a coragem de deixar a pergunta, no essencial, em aberto.

Minhas notas