Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M67

No Caminho de Swann

Marcel Proust
Marcel Proust, fotografia c. 1895 — período em que se preparavam, em silêncio, os primeiros materiais de <em>Em Busca do Tempo Perdido</em>.
Marcel Proust, fotografia c. 1895 — período em que se preparavam, em silêncio, os primeiros materiais de Em Busca do Tempo Perdido.

Um homem que dorme mal recorda a infância em Combray, pequena cidade francesa onde sua família passava as férias. Recorda a famosa madeleine — pequeno bolo molhado em chá — que, ao ser provada décadas depois, faz ressuscitar inteira a infância esquecida. Recorda os passeios de domingo, divididos entre o caminho de Méséglise (chamado também caminho de Swann, porque passava pela propriedade do amigo da família, Charles Swann) e o caminho dos Guermantes, símbolo da nobreza inacessível. Recorda os ciúmes que o pequeno Marcel sente quando a mãe não vem dar-lhe o beijo de boa-noite porque Swann janta com a família. O primeiro volume — Du côté de chez Swann — foi publicado em 1913. Era a porta de entrada de uma obra de sete volumes, Em Busca do Tempo Perdido, que Proust completaria pouco antes de morrer em 1922.

O segundo grande movimento do volume, “Um Amor de Swann”, antecede a vida do narrador: conta o ciumento e doloroso amor de Charles Swann por uma cortesã, Odette de Crécy. Swann descobre, à medida que ama, que o amor é principalmente uma operação interior — não tem muito a ver com o objeto amado. Odette, observada friamente, “não era nem mesmo do meu gênero”. Mesmo assim, Swann é capaz de horas de tortura quando Odette se atrasa. Proust diagnostica, em algumas das páginas mais argutas já escritas sobre paixão, o modo como o ciúme se alimenta da ausência e morre da presença plena.

Proust escreveu para os homens em geral o que cada um havia experimentado em silêncio: a desproporção entre o tamanho do que sentimos e a aparência das coisas que sentimos. O livro inteiro de sete volumes, do qual Du côté de chez Swann é apenas a abertura, é a história da redenção do tempo perdido pela arte. Quem encarar este primeiro volume com paciência descobrirá que as longas frases proustianas — algumas chegam a páginas — não são opacas: são lentas porque o pensamento que elas captam é lento, complexo, ondulante. Não há outra prosa moderna em que tantas camadas de tempo, memória, sensação e julgamento coexistam num único movimento sintático. Quem entrar nessa prosa não deseja sair.

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