Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M59

O Jogo das Contas de Vidro

Hermann Hesse
Hermann Hesse em 1927, fotografia de Gret Widmann.
Hermann Hesse em 1927, fotografia de Gret Widmann.

Num futuro indeterminado, após a “era do folhetim” — tempo em que a humanidade teria afogado a cultura em barateamento, simulacro e informação frívola —, instala-se, num pequeno distrito da Europa central chamado Castália, uma província consagrada exclusivamente ao cultivo puro do espírito. Os castalianos não exercem ofícios práticos; não produzem; não governam; são sustentados pelo Estado civil para que se dediquem, em rigorosa ascese, ao ensino, à ciência, à música e, acima de tudo, ao misterioso “Jogo das Contas de Vidro” — um jogo-síntese que, usando signos capazes de representar simultaneamente fórmulas matemáticas, frases musicais, versos antigos e conceitos filosóficos, permite aos jogadores compor variações sobre todos os temas da cultura humana. O romance, publicado por Hermann Hesse em 1943 no exílio suíço, é a biografia imaginária de Josef Knecht, um dos maiores mestres do Jogo, que acaba por abandonar Castália e morrer no primeiro dia do seu autoexílio.

O livro é a obra-prima tardia de Hesse, pela qual recebeu o Nobel em 1946. É, simultaneamente, uma utopia (a província culta como refúgio contra a barbárie moderna) e uma crítica dessa mesma utopia (o Jogo, por mais refinado que seja, é jogo — isto é, atividade autorreferencial, que perde o contato com a vida real e, por fim, sufoca até o seu maior praticante). Knecht, depois de atingir o topo da hierarquia castaliana, compreende que a província, ao afastar-se do mundo, tornou-se estéril; e que o seu dever é voltar ao mundo, mesmo sabendo que este provavelmente não o receberá bem. No primeiro dia fora de Castália, nadando num lago gelado com o seu primeiro e único discípulo externo — um jovem hedonista —, Knecht morre. O discípulo, chocado, talvez carregue o legado.

Thomas Mann, leitor atento, considerou o livro o mais importante romance alemão da sua geração. Há muitas maneiras de lê-lo: como alegoria do destino da cultura ocidental no séc. XX, como alegoria da vida monástica, como romance de formação invertido (o protagonista cresce para dentro de uma comunidade e depois precisa nascer de novo fora dela), como meditação sobre a relação entre vida contemplativa e vida ativa. Todas são válidas, nenhuma esgota. Hesse compôs o livro durante a guerra, como quem escreve um ato de fé na permanência da cultura além da barbárie imediata. É, por isso, um dos livros mais nobres do século — um livro que acreditava no que celebrava, e morria por isso.

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