Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M47

O Castelo

Franz Kafka
Alois von Saar, <em>Castelo de Praga — Hradčany</em>, séc. XIX — Kunsthistorisches Museum, Viena.
Alois von Saar, Castelo de Praga — Hradčany, séc. XIX — Kunsthistorisches Museum, Viena.

K., agrimensor, chega de noite a uma aldeia dominada por um castelo no alto da colina. Foi supostamente contratado pelas autoridades castelãs para fazer medições. Ao se apresentar, descobre que ninguém sabe dele, que sua contratação talvez tenha sido um equívoco, e que o acesso ao castelo — que, a bem dizer, parece mais um agregado disforme de construções rurais do que a fortaleza que se esperava — é estritamente regulado por uma burocracia cujas regras são tão imprevisíveis quanto as da gramática onírica. Durante trezentas páginas, K. tenta, por todos os caminhos, ser reconhecido pelo castelo. O romance ficou inacabado em 1922. Kafka morreu sem dar-lhe fim.

O Castelo é um livro ainda mais enigmático do que O Processo. Se no primeiro havia um tribunal — por mais obscuro que fosse —, aqui o que há é uma administração. K. não luta contra a acusação: luta pela admissão. Conquista, perde, reconquista, é de novo afastado. A aldeia inteira vive pendurada nos favores do castelo, nos arquivos do castelo, nas reuniões noturnas em que funcionários subalternos, meio adormecidos, despacham requerimentos cuja essência nenhum requerente entende. É um retrato, escrito nos anos 1920, daquilo que seria, duas décadas depois, a realidade concreta de metade da Europa oriental. Kafka não previu o totalitarismo: descreveu a sua ossatura psicológica antes que a máquina política a encarnasse.

Muitos leitores procuram no castelo uma alegoria. É o Estado? É a Graça divina? É a impossibilidade kantiana do conhecimento das coisas em si? Tudo isso — mas também o contrário. O que torna o romance inesquecível é a obstinação de K., que persiste numa causa que o leitor suspeita desde o início ser impossível. Mesmo assim, insiste. Porque, entre ser ignorado pelo castelo e deixar de insistir, K. escolhe o primeiro. É a única escolha que lhe resta para continuar sendo alguém. Kafka, pouco antes de morrer, teria dito a um amigo que o romance terminaria com K. morrendo na aldeia, e que, no leito, receberia do castelo a licença formal para residir ali. Licença que já não lhe serviria para nada.

Minhas notas