Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M43

Diário de um Pároco de Aldeia

Georges Bernanos
Georges Bernanos (1888–1948), fotografia sem data — Arquivo fotográfico da família.
Georges Bernanos (1888–1948), fotografia sem data — Arquivo fotográfico da família.

Um jovem sacerdote, recém-ordenado, é enviado para a sua primeira paróquia, Ambricourt, aldeia perdida do norte francês. Escreve um diário. Registra, num caderno escolar, as pequenas misérias quotidianas: a parca alimentação, a frieza dos paroquianos, a indiferença do conde que manda na região, a adúltera condessa que ele tenta reconciliar com Deus, os rapazes que o ridicularizam, a dor no estômago que piora dia após dia. O romance, publicado em 1936, é este diário. Ao terminá-lo, descobrir-se-á que o pároco morre de câncer gástrico no colo de um amigo ex-seminarista — e que as últimas palavras dele, sussurradas num quarto miserável, são: “Tudo é graça.”

Bernanos era um católico de ferro — monarquista, intransigente, incapaz de qualquer concessão aos poderes mundanos. O que impressiona em seu romance, porém, não é o doutrinário; é a delicadeza com que ele entra na consciência de um padre simples, de saúde frágil, que duvida constantemente da eficácia do próprio ministério. Não há um só dia em que o pároco se sinta à altura da tarefa que recebeu. E, precisamente por isso, todos os dias em que ele vai mesmo assim ao confessionário, à casa dos pobres, à bétula do parque onde reza, adquirem o peso de uma santidade real. Bernanos descobre, por via literária, aquilo que os grandes místicos sabiam: a santidade não é a ausência de dúvida, é a persistência apesar da dúvida.

O romance é, ao mesmo tempo, diatribe feroz contra a burguesia católica tépida do seu tempo, e carta de amor a uma figura de padre que, quando Bernanos o escreveu, já estava em vias de desaparecer. Bresson o filmaria em 1951, com aquela sua sobriedade luterana, e o resultado é um dos grandes filmes da história. Mas o livro é maior do que o filme, porque nele se lê o trabalho interno da alma — e é esse trabalho, não a ação externa, que dá ao Diário a sua força. Quem leu este livro nunca mais confundiu mediocridade social com mediocridade espiritual.

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