Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M40

Dom Quixote

Miguel de Cervantes
Gustave Doré, ilustração para a primeira parte de <em>Dom Quixote</em>, 1863 — o fidalgo perdido entre seus livros.
Gustave Doré, ilustração para a primeira parte de Dom Quixote, 1863 — o fidalgo perdido entre seus livros.

Um fidalgo da Mancha — cinquenta anos, magro, sem renda — lê tantos livros de cavalaria que perde o juízo e decide reviver a cavalaria andante em uma Espanha que já não tem lugar para ela. Sai pela estrada montado num jamelgo, seguido de um camponês ignorante a quem nomeia escudeiro, e investe contra moinhos de vento tomando-os por gigantes. A partir desse argumento que caberia num folhetim, Cervantes compôs em 1605 e 1615 os dois volumes de uma obra que fundou o romance moderno — não porque a trama seja original, mas porque, pela primeira vez em língua europeia, um autor deixou de julgar o seu personagem e aprendeu a amá-lo inteiro, com as suas grandezas e os seus ridículos.

A loucura de Dom Quixote é ambígua. É verdade que ele confunde realidade e ficção. Também é verdade que ele, e só ele, em todo o livro, ainda acredita que a honra, a justiça e a proteção dos fracos valem mais do que a segurança pessoal. O chão da Mancha está coalhado de pastores cruéis, de nobres cínicos, de clérigos covardes — e é precisamente o “louco” quem se atira de lança em riste contra o mal visível. Sancho Pança, seu contraponto, é o senso comum da carne: come, dorme, teme, calcula. Mas, à medida que o livro avança, Sancho vai sendo contaminado pela generosidade do amo, e Dom Quixote, vencido e entristecido, pela sabedoria prática do servo. Os dois se encontram no meio do caminho.

No final, já curado da loucura, Dom Quixote morre — e o narrador, com uma sobriedade que comove, observa que foi justamente quando voltou à sanidade que o cavaleiro perdeu tudo o que valia a pena ter. Ler o Quixote é descobrir que todo idealismo é risível, mas que um mundo sem idealistas é pior do que o mundo ridículo que eles perturbam. Desde então, nenhuma literatura — de Flaubert a Dostoiévski, de Machado a Kafka — deixou de dever algo ao cavaleiro e ao seu escudeiro.

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