Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M28

Fedra

Racine
Jean-Léon Gérôme (gravura de J. W. Evans), <em>Rachel no papel de Fedra</em>, séc. XIX.
Jean-Léon Gérôme (gravura de J. W. Evans), Rachel no papel de Fedra, séc. XIX.

Teseu, rei de Atenas, está longe. Dá-se por morto. No palácio, sua esposa Fedra, atormentada por uma paixão que ela mesma considera monstruosa, é devorada em silêncio pelo amor que sente por Hipólito, filho do primeiro casamento de Teseu — seu enteado. Movida pela criada Enone, confessa-lhe a paixão. Hipólito recusa com horror. Nesse mesmo instante, Teseu retorna: não estava morto. Fedra, dominada pelo pavor, permite que Enone acuse Hipólito de ter tentado violá-la. Teseu, enlouquecido, invoca Posêidon contra o próprio filho; o deus atende; Hipólito morre despedaçado. Fedra, por fim, toma veneno e, antes de morrer, confessa tudo. A peça, de 1677, é a obra-prima do classicismo francês.

Racine escreveu Fedra inspirado num Hipólito de Eurípides e numa Fedra de Sêneca. Mas o que Racine faz é único: transforma a heroína, que nos modelos antigos oscilava entre a culpa e a acusação, numa consciência lúcida da própria culpa. A Fedra de Racine sabe que o seu amor é ilícito desde a primeira fala. Luta contra ele. Jejua, emagrece, reza a Vênus para ser libertada. É vencida. Ao ser vencida, e ao ver-se convocada a mentir sobre Hipólito, sente algo ainda pior do que a paixão: a repulsa de si. “Minhas entranhas inteiras, meu coração inteiro, tudo em mim suplica a Vênus que me mate.”

Não há, em toda a literatura francesa, diagnóstico mais severo da condição humana quando esta é cercada simultaneamente pela paixão sem saída e pela consciência moral intacta. Fedra sabe o que é certo; escolhe o que é errado; destrói-se, e destrói outros, em plena lucidez. O classicismo de Racine — aparentemente frio, aparentemente formal — é apenas a moldura sob a qual se move o mais violento material emocional já colocado em alexandrinos. Quem lê Fedra atentamente descobre que as paixões humanas, quando em conflito com o que a consciência sabe, não se aplacam pela razão. Consomem-se em si mesmas. E, ao se consumirem, consomem tudo em volta.

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