O Gênesis
O Gênesis é o primeiro livro da Bíblia — em hebraico, Bereshit, “no princípio”, palavra com que se abre. A tradição judaica e cristã atribui a composição do livro a Moisés, no deserto, por volta do séc. XIII a.C. A pesquisa moderna situa a compilação final em torno do séc. V a.C., a partir de fontes anteriores. Mas o que importa para qualquer leitor, independentemente das questões de autoria, é o que o livro diz: a história das origens — do cosmos, da humanidade e do povo escolhido. Cinquenta capítulos, divididos em duas grandes partes: os onze primeiros descrevem a história universal (da criação do mundo à torre de Babel); os trinta e nove seguintes, a história patriarcal (Abraão, Isaac, Jacó, José).
O livro abre com a narrativa da criação em seis dias — não narrativa científica, mas teológica: mostra que tudo o que existe foi criado por uma Palavra divina, que tudo o que foi criado foi “visto como bom”, que o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus e colocado no Jardim para cultivá-lo. Segue-se a queda: Adão e Eva, tentados pela serpente, comem do fruto proibido, perdem a inocência, são expulsos do Paraíso. O mundo se deteriora rapidamente: Caim mata Abel, a corrupção se multiplica, Deus envia o Dilúvio — de que apenas Noé e sua família se salvam. A Torre de Babel confunde as línguas. É o quadro universal das origens da condição humana: criada boa, caída, chamada à redenção.
A segunda parte do livro começa com a vocação de Abraão — chamado por Deus a abandonar a terra natal e caminhar “para a terra que te mostrarei”. A partir dali, o livro acompanha o patriarca e sua descendência (Isaac, Jacó, os doze filhos de Jacó, José no Egito) em narrativas de espantosa densidade humana. Sara, mulher de Abraão, ri da promessa de maternidade na velhice; Jacó luta com um anjo ao amanhecer do Jaboque; José é vendido como escravo pelos próprios irmãos e se torna vizir do faraó. Cada história é, ao mesmo tempo, concreta e simbólica. O Gênesis é o livro fundador da tradição ocidental. Sem ele, não se entende Dante, não se entende Milton, não se entende Dostoiévski, não se entende Kafka. O professor Monir incluía-o, com razão, entre as obras absolutamente indispensáveis a qualquer leitor sério.