Rei Lear
Lear, velho rei da Britânia, decide dividir o reino entre as três filhas, tomando como critério a eloquência com que cada uma declarará publicamente o amor que lhe tem. Goneril e Regana — as duas mais velhas — soltam as mais vastas lisonjas. Cordélia, a caçula e predileta, recusa-se: diz que o ama “segundo o seu dever, nem mais nem menos”. Lear, ofendido, deserda-a e divide o reino entre as outras duas. Bastam poucos atos para que Goneril e Regana, uma vez de posse do poder, expulsem o pai. Lear, em meio a uma tempestade, perde a razão na charneca. Cordélia retorna com um exército para salvá-lo. É morta antes de conseguir. Lear morre carregando o cadáver da filha nos braços.
Escrita por volta de 1605, é a mais desolada das tragédias shakespearianas — e é a primeira grande obra da literatura ocidental em que a bondade não é recompensada e o mal não é punido. Nem a presença dos deuses, nem a ordem da natureza, nem a lógica política conseguem evitar o desastre. A peça paralela do Conde de Gloucester, que se deixa enganar pelo filho bastardo e perde os olhos, reforça o tema: quem vê tarde demais já não vê a tempo de salvar-se. “Um homem pode ver como este mundo anda com os olhos fechados”, diz o bufão do rei, talvez o personagem mais lúcido da peça.
Rei Lear é lido por muitos como a mais cristã e por outros como a mais pagã das obras de Shakespeare. Ambos estão certos. É um livro sobre o que sobrevive quando tudo é tirado do homem — e a resposta é simultaneamente aterradora e consoladora: sobrevive o vínculo real, o pequeno gesto de piedade, o toque da mão da filha. Tolstói detestou a peça; Dostoiévski a venerou. Não há leitor adulto que, tendo-a enfrentado, saia dela igual a como entrou.