Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M103

A Traição dos Intelectuais

Julien Benda
Julien Benda (1867–1956), fotografia sem data.
Julien Benda (1867–1956), fotografia sem data.

Em 1927, o filósofo francês Julien Benda publicou La Trahison des clercs — literalmente, “a traição dos clérigos”, no sentido medieval do termo, que designava os homens dedicados ao estudo e à contemplação. O livro é um diagnóstico severo: os intelectuais do seu tempo, que durante séculos haviam exercido a função de defender valores universais — justiça, verdade, razão — contra as paixões particulares dos grupos, agora fazem o contrário. Colocam a inteligência a serviço das paixões nacionalistas, de classe, de raça. Fornecem às massas as armas ideológicas de que precisam para odiar melhor.

Benda escrevia em 1927, antes da subida do nazismo, antes das purgas stalinistas, antes da guerra mundial que estaria a dez anos de distância. Mas o que ele diagnosticou — a conversão da elite letrada em técnica de mobilização emocional — estava claramente presente já na década. Ele cita nomes: Barrès, Maurras, D'Annunzio, Péguy, mesmo Nietzsche, todos aqueles que, com talento inegável, haviam abandonado o posto clássico do intelectual universal para tornar-se advogados de causas particulares. A cada um deles Benda reconhece o talento — mas recusa o papel de clerc. O clerc é o que se recusa a servir. O que serve é um ideólogo.

O livro é curto, cortante, elegante, profético. O seu título tornou-se, desde então, uma expressão corrente em várias línguas. A tradução portuguesa de Jorge Serapião para a editora Record é confiável. Lê-lo em 2025 é descobrir que quase todo o diagnóstico de Benda permanece em pé — com mais razão, não com menos. A universidade contemporânea, as celebridades intelectuais, os colunistas de prestígio — todos eles, ou quase todos, estão envolvidos no serviço de paixões particulares maquiadas de análise crítica. Benda não dá receita. Aponta a traição. Quem leu o livro não se deixa mais enganar pelo próximo intelectual militante que cruzar seu caminho.

Minhas notas